12 outubro 2015

Neda / Neptuno

Neda / Neptuno


[Atualizado a 26.10.2015]

O rio Belelhe é um rio de 32 quilómetros de curso, que nasce nas Pontes e desauga na ria de Ferrol, por Neda. De feito, Neda é o seu antigo nome, segundo se comprova nos moitos testemunhos que atopamos nos diversos tombos e coleçons diplomáticas procedentes dos mosteiros do noroeste do país, quais som os mosteiros de Sam Martinho de Júvia, Caaveiro, ou Sam Salvador do Pedroso, e nas que o rio é chamado Nepta, Nebda, Nedda, Neda:

ipsa aqua quae intrat in ipso fluuio de Nepta” 977 (Sam Martinho de Júvia d. 1)
uilla Anka intus de omnes iios flumes Narayo et Nepta, subtus monte de Lubeira et sub alio monte de Angus” 1096 (Sam Martinho de Júvia d. 15)
quanta hereditate iacet inter ponte de Iuuia et de Neda” 1114 (Sam Martinho de Júvia d. 21)
est terminus ipsarum hereditatum de Ponte de Nebda usque ad Ponte de Iuuia” 1162 (Sam Martinho de Júvia d. 58)
ecclesiam sancti Martini de Nedda1190 (Sam Martinho de Júvia d. 106)
per petra de Lubrizuy et inde per aquam de Neda et inde per terminum de Carro Fero [Freito]” (Tombo de Caaveiro d. 1)

O rio toma ou seu atual nome do lugar ou aldea de Belelhe, em Santa Marinha de Silhovre, Fene. Como tal, já se documenta em 1111, pode que antes:

flumen de Velelle” 1111 (San Salvador de Pedroso d. 1)

Ao respeito da etimologia de Neda, esta já foi tratada por Monteagudo (Hidronimia gallega, em Anuario Brigantino núm. 22, de 1999) e tamém, brevemente, por Juan José Moralejo num dos seus últimos trabalhos publicados (“Hidronimia prerromana de Gallaecia”, en Dieter Kremer (ed.) ONOMÁSTICA GALEGA II: Onimia e onomástica prerromana e a situación lingüística do noroeste peninsular. 2009). Por outra banda, nom atopo este hidrónimo entre os estudados por Edelmiro Bascuas.

Monteagudo relacionava Neda co indo-europeu *nei̯d- 'fluir' (Lexikon der Indogermanischen Verben p. 449, IEW 761), que origina o nome dum longo repertório de rios europeus (cf. Hans Krahe. Unsere Ältesten Flussnamen p. 48.), indicando a preservaçom anómala do /d/ intervocálico. Porém, esta possibilidade é desbotada por Moralejo, propondo, com interrogantes, um céltico *nei-t- > *nēt- (relacionado com PCl nēbo- 'vitalidade, vigor', nēmā 'brilho, beleza', latim niteo 'brilhar': Matasovic s.v. nēbo-, nēmā).

A proposta de Monteagudo nom é factível, ao nom poder dar conta nem do topónimo atual, nem das suas formas históricas; e tampouco o é a tímida proposta de Moralejo, que podendo explicar o topónimo atual, é incapaz de explicar as formas Nebda, Nepta, Nedda.

Na minha opiniom Neda < Nedda < Nebda, procede dum derivado do indo-europeu *nebh- 'feucht, bewölkt, dunstig (werden)' (Lexycon NIL p. 499-504). Esta raiz produz o nome das nuves, da névoa, e do ceo/Ceo num bo número de línguas indo-europeas, incluindo a nossa própria (névoa < latim nebula < PIE *nebh-e-lo 'pequena nuve', cf. Michiel de Vaan. Etymological Dictionary of Latin and the other Italic Languages p. 404). Porem, desta raiz temos tamém por exemplo a verba recolhida na glosa gala Inter ambes 'inter rivos', ambe 'rivo' (provavelmente, do grado zero *n̥b-i-, e estreitamente relacionado co nosso celtismo galego medieval ambas mestas 'augas mestas = confluência', de *n̥b-ā-, e que foi no seu dia estudado por Edelmiro Bascuas), assí como o latim imber 'chúvia' (< *n̥bʰ-ro-), o avéstico napta- 'húmido' (< *nebʰ-to-), e um longo repertório de rios europeus: Amir, Amyr, Amper, Ammer, Emmer, Ambrón, Ambre, Ambro… Seguramente tamém o nosso Ambia. Por último, achamos esta raiz no nome do deus romano Neptūnus ( < PIE *nebʰ-tu- 'humidade'), o Senhor do Mar, tanto na opiniom dos autores do Lexycon NIL como de Michiel de Vaan (obras citadas).

Neda < Nedda < Nebda < *Nebʰ-etā seria algo assi como 'húmido / o rio do pantanal / do lameiro / da branha'. Note-se que alguns étimos similares nom poderiam dar o nosso topónimo atual. Assi, *nebʰ-to- teria evoluído em *neχto- > *neto- / *necto-, seguindo a evoluçom máis comum da toponímia do contorno (céltica), nom podendo dar conta dos resultados históricos ou do resultado atual. Ainda assumindo que *nebʰ-to- tivesse passado por umha evoluçom nom céltica *nebto- / *nepto-, estas formas nunca poderiam ter originado o topónimo moderno, pois deveram ter dado um romance *netto-/*neuto-. Em consequência, opino que o étimo PIE é *Nebʰ-etā, com evoluçom *nébetā -acento de intensidade na última, e bʰ > b compatível coa celticidade do hidrónimo-, e posterior evoluçom romance *néb'da > *nedda > *neda. A grafia medieval Nepta coido que é umha de tanta grafias inversas, de cariz etimológico, que atopamos na documentaçom do período, com conversom das oclusivas sonoras em xordas.

Como tacha da minha proposta, eu aguardaria a pronúncia [ˈnɛða̝], mais a pronúncia recolhida polo Dicionario de Pronuncia é ['neða̝]; se é que isto nom se deve ao peche por harmonia vocálica co desaparecido /e/ breve átono do sufixo, deveríamos partir da raiz co grado longo *nēbʰ-, infrequente.

Hai umha aldea ou lugar de Neda, no Corgo, Lugo, à beira do rio ou rego da Pontecela, afluente do Romeám. Se presumimos a mesma orige para este topónimo, entom podemos supor que este era o nome antigo do devandito rio da Pontecela.

[Atualizado a 26.10.2015]

Dizia ao remate do artigo que, como tacha do étimo proposto por mim, o topónimo atual é ['neða̝], e nom o [ˈnɛða̝] que eu aguardaria seguindo umha evoluçom regular; mais hai outro possível étimo que explicaria de jeito regular o topónimo atual e as forma diacrónicas. Este seria *nēbetā ou *nibetā, evoluçom celta standard partindo do protoindo-europeu *nei̯g-eto- ou do seu degrau zero *nig-eto-. Esta raiz, *nei̯g- 'waschen' (NIL p. 519; LIV p. 450; IEW p. 761), produz em diversas línguas indo-europeas verbas relacionadas coa agua e os seres acuáticos, co lavado, e coa limpeza, verbi gratia o latino noegeum 'Schweißtuch' (“sudário” < *noi̯g-i̯o-) e o irlandês antigo necht 'rein, hell' (“limpo, brilhante” < *nigto-) e védico nikta- 'gewaschen' (“lavado”, mesmo étimo).

Nesse caso, Neda ['neða̝] < Nedda < Nebda < *Nebeda < Celta *nēbetā / *nibetā '*limpa'. O significado primitivo seria “(auga) limpa” ou similar, ainda que nom sei se esta qualidade das suas augas lhe acae bem ou nom ao rio de Belelhe. As evoluçons *ei̯ > *ē e *g> *b som inequivocamente celtas.

14 xullo 2015

Ευρώπη

Hoje invejo aos británicos, que em breve poderám decidir se querem estar aqui (mesmo se ficarem só para evitar que as políticas neoliberais impostas desde o centro levem a este continente à nada):

The Guardian: History shows how the Greek crisis could pan out: http://www.theguardian.com/business/2015/jul/14/history-shows-how-the-greek-crisis-could-pan-out.

12 xullo 2015

Berce de Pedro Chosco

De Non hai berce coma o colo. Para papás, mamás, meninhas e meninhos, e amantes da música. Fermosíssimo.

09 febreiro 2015

Ceza, Coeo, Muxa, Robra: hidrónimos prelatinos

Engadido o 12/02/2015:

Merquei os dous primeiros volumes da ediçom da Colección Diplomática de Ventura Cañizares del Rey,  por Manuel Rodríguez Sánchez e Óscar González Murado; graças a alguns documentos desta colecçom podo confirmar ou corroborar as identificaçons dos rios Rovora e Saleza.

1º.- Documento 47, datado em 973: "villa vocitara Papi iusta ribulo Rovora", em referência a Pape, Silvarrei, Outeiro de Rei, moi perto do Rego de Santa Marta, já sem dúvida pola minha parte antigo rio Rovora.

2º- Documento 82, do ano 1017: "villa quos vocitant Andriati territorio Mere subtus Monte Meta et ribulo discurrente Saleza". Refire-se a Andreade, em Calde, Lugo, nom moi longe do Monte Meda, e a algo máis dum quilómetro do curso do Rego de Vilamoure (antigo Saleza na minha opiniom). Agora bem, tendo em conta que por Andrade passa o Rego do Lavadoiro ou de Segade, cabe a possibilidade de que fosse este o Saleza, e nom o Rego de Vilamoure/Ceza. Nom obstante, o seguinte documento penso que corrobora a minha primeira indentificaçom, e em consequência  a proposta Ceza < Saleza:

3º- Documento 173, do ano 1048: "villa quos nuncupant Villa Mauri subtus castro de Palatio discurrente ribullo Saleza": Vilamoure, em Santiago de Saa, Lugo, da nome ao Rego de Vilamoure (Saleza > Ceza), e está situada baixo um castro, o Castelo de Vilamoure.

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Estou a juntar -aos poucos, moi aos poucos- toda a documentaçom antiga que considero relevante ao respeito de quase qualquer topónimo galego. Estes dias ando de repasso ao Tombo Velho da Catedral de Lugo, editado há nom moito tempo por José Luis López Sangil e publicado no número 27 de Estudios Mindonienses (TVL). Dos documentos contidos nesse importante património, e da história dum número de topónimos da contorna, deduzem-se o nome prelatino dalguns dos rios próximos à cidade de Lugo; e já que aparentemente algúns destes rios nom estám recolhidos (que eu saiba: Robra, Coeo, Muxa, Ceza) nos escritos publicados dos profesores Edelmiro Bascuas e Juan José Moralejo, coido que é de utilidade deixar aqui a cousa sinalada. In memoriam.




Ceza < rio Saleza:

(em vermelho no mapa)

Ceza é lugar da freguesia de Coeses, do concelho de Lugo, na beira dereita do rio Minho. Equidista do castro do Graián, ao norte, e do curso do rego Ceza (ou de Ceza?) ou de Vilamoure ao sul. Penso que nesse topónimo sobrevive o nome dum antigo regato, o Saleza, mencionado num documento do ano 998 (TVL d. 102), o testamento do bispo Paio de Lugo: após mencionar diversas posses no condado de Mera, engade "ripa riuulo Saleza, hereditate de Aloyto monago". Ainda que a indetificaçom nom pode considerar-se segura penso que a evoluçom Saleza > *Saeza > *Seza > Ceza (com assimilaçom das consoantes fricativas) é quase obrigada, a nom ser polo último passo.

Pola sua banda, o hidrónimo Saleza (-eza < *-ekyā  ou -etyā, cf. o pontevedrês Tomeza) presentaria um tema *sal-, tipicamente paleo-europeu (PIE *sel- 'mover-se rapidamente' ou PIE *seha-(e)l- 'sal, auga (salgada)', cf. Oxford pp. 397 e 261), mais presente tamém na hidronímia céltica (PCl *salā 'lixo, sujidade', PCl *sālo- 'mar, auga de mar', cf. Falileyev 2007: 27 e Matasovic 2009: 319). Provavelmente o mesmo tema estava presente em Seaia (Malpica de Bergantinhos), topónimos que preserva o nome antigo da comarca, Salaia < *Salawyā / *Sālawyā '*Beira-mar' ou similar. Outro topónimo galaico similar é a mansio Salacia, na via XVII perto de Braga, segundo recolhe o Itinerário de Antonino, e idêntico era o nome dumha cidade lusitana (Holder, Alfred, Alt-celtischer Sprachschatz, 3 vols, Leipzig: Teubner, 1896–1913: 1297-1298). Holder recolhe tamém o topónimo galo Saletio(n), hoje Selz em Alsácia, e o rio asturiano Sella < Salia (Holder o.c. 1305-1306), entre outros moitos nomes relacionados.

Neebron < Nelebrone

(laranja no mapa)

Este era o antigo nome do rego de Cunturiz ou San Mamede, segundo se segue das moi numerosas citas que del se fam na documentaçom da catedral de Lugo, como por exemplo:
- "ubi intrat Nelebron in Mineo, & inde indirecto ad Hermulfi, qui intus concluditur, & inde ad illa Laguna, quae jacet inter Coeses & Reboreto" (1078)
- "in aqua de riuulo Nelebrone sicut intrat in aqua flumine Minei (..) Nerebron" 1027 (TVL d. 10)
- "ubi intrat Nelebron in Mineo" [572] (TVL d. 6)
Com respeito à etimologia deste nome só quero lembrar que o celta *labaro- 'eloquente, falangueiro' gera o nome de diversos rios nas ilhas británicas. Mais entom, que é *ne-? Ou um composto onde o primeiro termo poderia estar relacionado co nome do rio Nalón em Astúrias, antigo Nelo ou Nailo (Holder o.c. 673).

Coeo < rio Cauleo

(em azul no mapa)

Som dous os lugares chamados Coeo no concelho de Lugo; o primeiro pertence à freguesia de Santa María de Bóveda, o segundo da nome à freguesia de San Vicente de Coeo. Distam um par de quilómetros e estám ambos ao carom do Rego de Carballido, afluente do rio Chamoso pola dereita. A título de exemplo, San Vicente era "Sanctum Uincentium de Cauleo" (c. 1120, TVL d. 114). 

Por outra banda, som vários os documentos medievais que nos falam dum rio Cauleo ao leste da cidade de Lugo, os máis deles copiados no Tombo Vello:
- "aqua de Kauleo" (1027, TVL d. 10)
- "per Uillam Planam [Vilachá] et per aquam de Uermenoso et de Cauleo et per mamolam de Sistello et per montem Baron et per aquam de Neebron - terminatur in Mineo" (897, TVL d. 57)
- "per ille arroio de Uermerido usque intrat in aqua de Cauleo" (1078, TVL d. 81)
- "Castro de Boueta iuxta Riuulo Cauleo" (1077, TVL d. 115)
- "in ripa riuulo Cauleo IIIª de ecclesia Sancti Uincentii [San Vicente de Coeo]" (1042, TVL d. 125)
Esse é o Rego de Carballido, a cuja beira estám os devanditos lugares de Coeo, Vilachá e Castro de Bóveda.

Hai tamém ao menos dous lugares Chamados Coeses na beira do Minho, um em Santalla de Quinte, no concelho do Corgo (era "Coleses" em documento datado c. 1120, TVL d. 104), e o outro no próprio concelho de Lugo, em Santa Maria Madalena de Coeses ("Colegeses" no Tombo 1 de Sobrado, d. 4, "Cauleses cum ecclesia Sancto Petro" em inventario sem data, Tombo 1 de Sobrado, d. 283). Estam originadas, suspeito, em repovoaçons a curta distáncia, com colonos procedentes do val do rio levados alguns quilómetros ao sul e ao oeste (cf. ao respeito de colonos procedentes de certas comarcas nomeados polos rios que as definem: As Maus < Asmanos, Armeses < Asmenses, Naveaus < Navianos, Chamosiños < Flammosinos, Loureses < Laurenses, Sarreaus < Sarrianos, Louzaregos, Meiraos...)

Assemade, a grafia Colegeses permite reconstruir umha forma anterior *Cauleyo, donde *Cauleyo > Cauleo > Coeo, e Cauleyenses > Coleses > Coeses. *Cauleyo (procedente dum étimo *Cawlewyo, com queda de w intervocálico prévio ao passo usual ew > ow? Mais rio Deva < *Deiwā...) presenta um sufixo de grande rendimento na toponímia prelatina galaica, hidrónimica ou doutra orige: Arabexo, Arexo, Cambeo, Cardeo, Cardexo, Carleo < Carolegio 932, Carlexo, Corteo, Labexo, Lareo, rio Mandeo, Paleo, Teo < Talegio 914, Tineo, Torbeo, Torea < Toregia 1158, rio Vea < Velegia 912... A raiz do topónimo pode ser o indoeuropeu *kawl- 'cana' (latin caulis idem, grego kaulós idem, antigo irlandés kúal 'feixe' < kaulā, cf. Oxford pp. 162-163, e Michiel de Vaan 2008 "Etymological Dictionary of Latin..." p. 100), e deste jeito o nosso rio Coeo < *Cauleyo seria algo assi como 'o (rego do) canaval'. Em todo caso som varias as localidades luguesas chamadas Coea, sempre abeiradas a um ou outro rio, o que reforça a natureza hidronímica deste raiz (assumindo Coea < *Cauleya): em Navia de Suarna, sobre o Navia; numha chaira em Castro de Rei, banhado polo Minho e o Azúmara; e em Vilalva junto ao rio Ladra. No mesmo tipo de localizaçom atopamos os lugares chamados Canaval e similar.

Holder recolhe nomes de lugar galos derivados de formas Cauliāca e *Cauliācum, à sua vez topónimos derivados do nome latino Caulius (Holder o.c. 867-868).

Muxa < Musia

(em verde no mapa)

É na minha opiniom o antigo nome do rio Fervedoira, chamado da Chanca nas proximidades da cidade de Lugo. Perto da sua foz no Minho temos a igreja de San Pedro Fiz de Muxa, e rio arriba atopamos as freguesias de San Salvador e Santa Maria de Muxa:
- "Hereditate mea de Musia" (1180, TVL d. 42)
- "Sancti Saluatoris de Muxia (1114, Tombo de Xuvia d. 22)
- "in ripa Musie" (998, TVL d. 102)
- "Castro super ripa Musie" (1077, TVL d. 115)
Etimologicamente, Muxa < Musia, onde o u de Musia provavelmente era longo, dado que o resultado actual e antigo é sempre u; logo Muxa < *Mūsyā, onde *mūs- pode ser o PIE *muHs- 'rato' (e logo "(rio) dos ratos") ou *mēus- 'musgo' ( > lameira, cf. Oxford p. 137 e de Vaan 2008: 397). Nom desboto contodo o celta *musso- 'sujo' (Matasovic 2009 s.v.).

Robra < Rovora < Rovera

(amarelo no mapa)

É o antigo nome do rio Pequeno / Rego de Santa Marta, que desauga à dereita no Minho uns centos de metros máis abaixo da sua confluência co Ladra. Na idade media é citado como Rovera / Rovora, usualmente na sua condiçom de límite do condado de Sobrada:
- "Secundus uero Comitato Superata deducitur: oritor ubi ingreditur flumen Rouera in Mineo" (TVL d. 6)
- "ecclesia uocabulo Sancti Saluatoris in uilla uocata Mazaneta [San Salvador de Mosteiro] (...) que sita est sub alpe Ferraria iuxta riuulo Rouera subtus castro Aquilari" (1029, TVL d. 16)
O nome do rio chega aos nossos dias no nome do lugar e freguesia de San Pedro Fiz de Robra.

Umha (possível?) etimologia céltica *ro-ber-ā 'a que leva moita (auga)' ou similar nom tem sentido num rio que é chamado Rio Pequeno, a nom ser que seja um topónimo viageiro desde umha canle velha do Minho ou similar. Por outra banda o o pechado de Robra pide um o longo ou u no étimo.


Por último, Mera e Narla < Nalar < Nallare som topónimos prelatinos conhecidos e estudados; hai máis hidrónimos Mera < *Mirā na Galiza, e Nallare/Nallara amossa o mesmo sufixo que Tambre < Tamare ( / Tamara).

13 novembro 2014

Xuanzo, Xuances, Ledoño

1. Xuances é freguesia no concelho de Xove, Lugo, baixo a padroádigo de Sam Pedro; era Juanses em 1286 e Joanses em 1291 (cf. ITGM: XUANCES). Temos tamém a aldea de Xuanzo, em Cullergondo, concelho de Abegondo. Deste lugar temos um testemunho antigo num documento datado em 911 e relativo ao mosteiro de Cis, e que segundo a ediçom de Carlos Saez (GFA doc. 12) di:

“inter ambos Iohoancios. per petram que diuidit inter Presidium [Presedo] et Ioancium [Xuanzo] et Villar”

Ambos os dous topónimos carescem de étimo latino; na minha opiniom som formas derivadas do céltico *yowanko- 'jove, novo' (breton yowanc, irlandés antigo óac), procedente dumha forma anterior *yuwanko- (Matasovic 2009: 436-437), e cognato de, por exemplo, o inglês young 'novo' (do proto-germánico *junga- 'novo', Kroonen 2013: 274-275), do sánscrito yuvasa- idem, e do latino *iuvencus 'touro novo' (De Vaan 2008: 317). Cognato tamém do nosso jovenco 'almalho; touro novo', e orige do nome de duas freguesias chamadas Xuvencos, nos concelhos do Savinhao e de Boborás, esta última documentada como “Iouencos” em 956 (GFA doc. 58). Em última instáncia todas estas formas procedem dum indo-europeu *h2iu-Hn-ko-, derivado possessivo de *h2oi-u- 'vida, idade', donde tamém o antropónimo Aio (Aio Temari) na táboa de hospitalidade do Courel.
Voltando aos nossos topónimos célticos:

Xuances < *yowank-is

Xuanzo < Iohoancios / Ioancium < *yowank-yo-

Xuances presenta umha desinência frequentíssima na toponímia pré-latina galega que em principio semelha ou bem a adaptaçom dum nominativo atemático, como em Saris < Sars (assi transmitido por Pompónio Mela: “Tamaris secundum Ebora portum, Sars iuxta turrem Augusti titulo memorabilem”), ou bem um locativo ou acusativo plural latino; nengumha destas opçons convencem. Pola sua banda Xuanzo presenta um sufixo -yo-, trivial no material indo-europeu, que provavelmente procede do acusativo latinizado *iouanciu/*iōanciu- dum topónimo autóctone *yowankon (nominativo singular, neutro).

Ambos teriam experimentado a mesma evoluçom. Num primeiro momento deu-se a reduçom do ditongo ow > ō (este fenómeno estava em marchar no hispano-celta da Galiza ao princípio da nossa era, compare-se o antropónimo Cloutius do PIE *klewto- 'sona, fama' com Vesuclotus '(o que tem) boa sona', de *wesu- 'bo, excelente' e *klewto- > celta *klowto- > celta galaico serôdio *klōto-; cf. Prósper 2002: 211 e 423) o que nos levaria diretamente a umha das formas documentadas na idade media:

*yowank-yo- -> *yōancion > Ioancium > xuanzo (dissimilaçom das vogais em hiato)

Para Xuances:

  *yowank-is > *yōancis (ow > ō) > *Ioances (adaptaçom ao latim vulgar / romance) > Xuances.

Note-se que a palavra busto, que no passado designava um lugar ou estabelecimento para vacas, usualmente situado num lugar elevado (para disponher de pastos verdes todo o ano?), procede dum hispano-celta *bow-sto- ‘lugar para vacas’ > būstu-, com –ow- > -ū-.

Outros topónimos galegos pré-latinos poderiam amossar esse mesmo fenómeno céltico, com reduçom do ditongo /ow/; como mera possibilidade: Buazo < *Bowatyon, e pode que Luaña, Luama. Ficam para outro dia. Pola contra, outros amossam provavelmente perda de /w/ intervocálico: Noia [ˈnɔja̝] < Novium (se é que o o tónico aberto nom foi causado por metafonia; doutro modo poderia proceder dum o longo).

Sobre a perda de w intervocálico: Ledoño, em Culheredo, era Letaonio em 830, do que deduzo que i nome deste lugar é um derivado do celta *(p)litawī- “largo, amplo”: *(p)litawonyon > *Litaonyu- (forma proto-romance) > Letaonio > Ledoño.


BIBLIOGRAFIA:

De Vaan, Michiel (2008). Etymological Dictionary of Latin and the other Italic LanguagesLeiden: Brill. ISBN 978-90-04-16797-1.
* GFA = Sáez, Carlos (2003) La Coruña. Fondo Antiguo (788-1065) 1.  Alcalá: Universidad de Alcalá. ISBN 84-8138-597-2.
* ITGM = Martínez Lema, Paulo e outros (2008-2012) Inventario Toponímico da Galicia Medieval (http://ilg.usc.es/itgm/).
* Kroonen, Guus (2013). Etymological Dictionary of Proto-Germanic. Leiden: Brill. ISBN 978-90-04-18340-7.
* Matasovic, Ranko (2009). Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill. ISBN 90-04-17336-6.
Prósper, Blanca María (2002). Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la península ibérica. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca. ISBN 84-7800-818-7.