16 de outubro de 2008

Alguns Nomes Bíblicos na Toponímia Galego-Portuguesa

Abstract: Some biblical names that where common in Galicia and Portugal in the Middle Ages are also well represented as land names, formed in general from a genitive: Vila Joám ‹ Villa Iohanni, genitive of John; Andrade ‹ *(villa) Andreati, genitive of Andreas; Germade ‹ *(villa) Iermiati, genitive of Jeremiah, etc.


Som abundantes os nomes de orige bíblica na toponímia galega, e do noroeste ibérico em geral, lembrando a algum velho possessor ou apreendedor. Previamente a entrarmos em matéria tam só quero afirmar que estes nomes eram empregados na alta Idadteme Media por cristians, frequentemente monges ou abades.


1.- Iohannes:

Esta forma greco-latina procedente de Yohanan (DGN: 628), nome hebraico dum dos apóstolos, e máis do Batista. Do seu acusativo Iohannem provem o nome Joám/Xoám.


Bistijoám/Bistixoán (3 hab.- Guitiriz, Lugo), de Bustu Iohanni 'Pastos de Joám'

Souto Juane/Soutoxuane (24 hab.- Mondonhedo, Lugo), de Saltu Iohanni

Vilar Joane/Vilarxoán (41 hab.- Frades, Crunha)

Vilar Joám/Vilarxoán (Sam Lourenço)‹/B› (35 hab.- O Inço, Lugo)

Vilar Juane/Vilarxuane (32 hab.- Pontenova, Lugo)

Vila Joám/Vilaxoán (21 hab.- Palas de Rei, Lugo)

Jaine/Xoaine(27 hab.- Guntim, Lugo)

Joane/Xoane (0 hab.- Boborás, Ourense)

Joane/Xoane (125 hab.- Carvalho, Crunha)

Joane/Xoane da Estrada (202 hab.- Carvalho, Crunha)

Fonte Joám/Fontexoán (3 hab.- Melide, Crunha)

E máis o diminutivo:

Xoanín (26 hab.- Chantada, Lugo), de Iohannini

Em Portugal hai, quando menos:

Joane (Vila Nova de Famalição, Braga)


2.- Andreas:

Nome grego (DGN: 44) dum dos apóstolos; dumha forma Andree procede o moderno André

Os seguintes topónimos procedem todos dum genitivo Andreati (no passo do latim ao Galego e Português as oclusivas indo-europeas quando entre vogais convertem-se em aproximantes: [k p t] › [γ β δ], notadas como -g-, -b-, -d-):



Andrade (58 hab.- Sam Amaro, Ourense) ‹ 'uillam in territorio Castelle nomine Andriati' (Tombo A, 1017)

Andrade (94 hab.- Santiago de Compostela, Crunha)

Andrade (Sam Martinho) (443 hab.- Pontedeume, Crunha) ‹ 'villa que iacet in Andradi' (CODOLGA, 1104)

Andreade (Santiago) (37 hab.- Paradela, Lugo) ‹ 'in Comitatu Mera villa quam dicunt Andriati cum domos' (CODOLGA, 998)

Em Portugal penso que tem idéntica orige:

Anreade (Resende, Viseu)


Como antropónimo é conhecido no noroeste ao menos desde o ano 572 A.D., quando o bispo Andreas assistiu ao II concílio de Braga, presidido polo rei suevo Miro, como representante de Íria, hoje Padrom. Tanto esta forma como Andrias é moi frequente na alta idade media.


3.- Ieremias:

É a forma greco-latina do nome hebraico Yirmeyah (DGN: 620), nome dum dos grandes profetas do Antigo Testamento. Os seguintes vém do genitivo Iermiati.



Germade/Xermade (54 hab.- Marim, Pontevedra)

Germade/Xermade (2.414 hab.- concelho na Terra Chá, Lugo)

Germeade/Xermeade (11 hab.- Palas de Rei, Lugo)

Germeade/Xermeade (55 hab.- Teo, Crunha)

Germeade/Xermeade (Sam Miguel) (127 hab.- Muinhos, Ourense) ‹ 'in Germiati hereditate quos fuit de Menindo Gundesindiz' (Celanova, 1051)

Em Portugal:

Germinade (São Pedro do Sul, Viseu)

A orige da nasal palatal /n/ está no hiato -ia-/-ea-, como em minha ‹ latin MEA, ninhonio ('Nio de Aquila', CODOLGA, 1157) ‹ lat. NIDUM, port. uma, gal. umha ‹ ũa ‹ lat. UNAM...


O nome documenta-se na Galiza ao menos desde um documento celanovês de meiados do 932: 'Ildemirus presbiter ts. Iheremias presbiter ts. Fardulfus presbiter ts'. Outras formas documentadas son Geremias, Germias, Ieremias, Iermias.


4.- Elias

Do hebraico Elliyàh(û), um dos grandes profetas do antigo Testamento (DGN: 194).


Ilhade/Illade (16 hab.- Jove, Lugo), de *Eliati: [ly] › [λ]


Nom é nome moi frequente: 'Guisindus presbiter. Elias presbiter. Cipanus presbiter ts.' (Celanova, 907c). Em Portugal já desde o ano 870 (PMH, Diplomatae et Chartae, doc. 6).


5.- Zacharias

Do hebraico Zekharyah(û), é o nome do pai de Joám o Batista (DGN: 642).


Xagrade (15 hab.- Vila Marim, Ourense), de Zacariati, com c simples ( [k] › [γ] ) e [z] › [s] › [ſ].

Zacarade (18 hab.- O Irijo, Ourense), de Zaccariati, com dupla c, que se simplifica na evoluçom dos romances do noroeste da península ibérica: [k:] › [k]

Ouvo outro pola Terra Chá (Lugo): 'et inde per illo rego que uenit de illa fonte de Uilla Domneca, concludet se per Castru Coruelli et inde per Zaccariati' (Lourenzá, 1089)


Como nome aparece em duas variantes principais, com c dupla ou simples. Eis alguns exemplos:

'Franquila abba atque Zaccarias abba' (Celanova, 927)

'Sendina et de meos germanos Zacharias, Fofus, Uimaredo' (Sobrado, 942)

'Sendinus confesus. Zakarias confesus. Sandinus confesus' (Celanova, 955)

'ego Zaccharias' (Caaveiro, 1101)

'ego Zagaraias Armentarez' (Caaveiro, 1101)


6.- Thomas

Deste nome, que é umha adaptaçom grega do arameu t'omâ´ 'gemeu' (DGN: 574), alcume dum dos apóstolos de Cristo, procedem as formas actuais Tomas e máis Tomé (como André).



Castomás (3 hab.- Castro Caldelas, Ourense), isto é, Casa (de) Tomás.

Pena Tomé/Penatomé (5 hab.- Vilalba, Lugo) Na Idade Média pena tinha ainda o significado latino de 'castro, forte, castelo'.

Em Portugal:

Tomás (Baião, Porto)

Tomé (Cabeceira de Basto, Braga)


E nome moi pouco frequente na idade media na Galiza, e a sua primeira documentaçom da-se no tombo de Sobrado, no ano 1190: 'nos supranominati Petrus Pelagii, Thomas Pelagii et Azenda Pelagii'. Nom surpreende logo a ausência de formas genitivas no pais.


7.- Matthaeus

Forma latina do grego Maththaios, este a sua vez adaptaçom do arameo Mattay, nome do que foi apóstolo e autor dum dos evangelhos (DGN: 389).



Vila Mateu/Vilamateo (Santiago) (132 hab.- Vilar Maior, Crunha), do acusativo Matteu: [t:] › [t]

Matei (17 hab.- Guntim, Lugo), do genitivo Mattei.


Nom é nome frequente, ainda que já o conhecemos na Galiza desde: 'Mateus cfr. Ordonius cfr. Egilani presbiter scripsit.' (Celanova, 1021), e em Portugal 'Matheus Froylaz test.' (PMH, 1023)


8.- Maria

Nome da nai de Jesus, provem do hebraico Myriam ou Maryam (DGN: 382).


Cachamaria/Cachamaría (17 hab.- Pereiro de Aguiar, Ourense). O primeiro elemento do topónimo provem tal vez dumha forma CASTELLU- 'Castelo', que por perda da tonicidade tivesse evoluído *cast'l › *casch- › cach-. Ou é transformaçom dum topónimo como o que segue.

Casa Maria/Casamaría (28 hab.- Silheda, Pontevedra)

Casal de Maria/María (33 hab.- Cedeira, Crunha)

Casar de Maria/María (29 hab.- Sam Cristovo de Cea, Ourense)

Fonte Maria/Fontemaría (12 hab.- Arvo, Pontevedra)

Pena Maria/Penamaría (10 hab.- Fonsagrada, Lugo)

Em Portugal:

Bouça Maria (Marco de Canaveses, PO)

Casal Maria (Santa Comba Dão, Viseu)

Casal Maria (Vila do Conde, Porto)


9.- Saulus

Forma greco-latina do hebreo Shâ'ûl, 'agradecemento a Deus polo nacemento dun fillo longamente desexado' (DGN: 536).


Sol (50 hab.- Vedra, Crunha), do genitivo Sauli, com [aw] › [ow] › [o], este último passo é frequente em sílaba fechada.

Castrosol (0 hab.- Muras, Lugo)

Vilasol (21 hab.- Pedrafita do Cevreiro, Lugo)

Em Portugal:

Boussol (Arcos de Valdevez, VC), provavelmente de Bouça Sol.

Sol (Lousada, PO)


Nom é nome frequente: 'post obitum idem predictus abbas, successit Saulus in uicem eius' (Celanova, 927) e 'quam nobis dedit Saul et uxor sua Maria' (Celanova, 1010)


10.- Lazarus

Do arameu La'zar, nome do home que foi ressuscitado por Jesus aos quatro dias de morto.


Castro Lázaro/Castrolázaro (79 hab.- Porto Marim, Lugo)

Lácere (53 hab.- Sada, Crunha)

Lázare (26 hab.- Guntim, Lugo)

Em Portugal:

Lázaro (Águeda, Aveiro)

Lázaro (Arouca, Aveiro)


É nome comum na alta idade media, com primeira documentaçom do noroeste no ano 927, em Coimbra: 'Fradila test. Lazaro test. Maiorelle test.' (PMH, doc. 32). Na Galiza: 'Quellas confessus ts. Lazarus presbiter ts. Tanoi presbiter ts.' (Celanova, 940)


11.- Iohacinus

Do hebraico Yôhaquîm, é o nome do pai de Maria (DGN: 630). As formas modernas, Jaquim ou Joaquim, devem ser reintroduçons serôdias.


Jozim/Xocín (25 hab.- Aranga, Crunha)

Jozim/Xocín (49 hab.- Banhos de Molgas, Ourense)

Jozim/Xocín (22 hab.- Carral, Crunha)

Jozim/Xocín (80 hab.- Porqueira, Ourense)

Jozim/Xocín (14 hab.- Ramirás, Ourense)

Em Portugal:

Joazim (Cinfães, Viseu)

Joazim (São Pedro do Sul, Viseu)


Nome nom moi frequente, apresenta sempre a mesma forma na documentaçom galega e portuguesa: 'tres filios de Berusindo nominibus Ioacino et Alamiru et Leovilli' (Celanova, 947), 'Fafila. Fofo. Ioacino. Rrodosindo.' (PMH, 957)


12.- Daniel

Do hebraico, Dan-y-el 'Deus é o meu juiz' (DGN: 163), suposto profeta do antigo testamento de suspeitosa existência.


Del (10 hab.- Ordes, Crunha), procedente dum genitivo Danieli, com perda galego-portuguesa do [n] entre vogáis.


É nome moi comum, apresentando as seguintes formas:
'
Ausila Daniel Quorimio' (Sobrado, 818),
'
Danihel testis. Gontato testis. Ermarico testis' (Santiago, 1059),
'
in illo carrazedo retro cassam de Dael' (Sobrado, 1157). Com perda do [n] entre vogais.


13.- Simon

Forma grega de Shime'ôn 'Deus Ouviu' (DGN: 548), nome de Simom Pedro, apóstolo e primeiro papa de Roma.


Lamacemom/Lamacemón (21 hab.- Páramo, Lugo). Com [s] › [z] ao ficar entre vogais, e [i] breve › [e]. Lama é acô 'prado', e tem orige prelatino.


Em Portugal, suspeito que tamém o seguinte tem a mesma orige:

Samão (Cabeceira de Basto, Braga)


Só é nome comum desde a baixa idade media: 'abbati Simon notauit hec' (Sobrado, 1157).


14.- Iacobus

Este nome, máis popular nas formas Iago (Iacobu › *Iagovo › *Iagoo › Iago, como Lemabos › Lemoos › Lemos) ou Santiago (Sant'Iago), provem do hebraico Ya'aqôbb (DGN: 608), nome de dous apóstolos, entre eles o nosso Santiaguinho piligrim (sou picheleiro, que lhe hei fazer!)


Jagove – Vila Vedra/Xagobe - Vilavedra (393 hab.- Portas, Pontevedra), do genitivo Iacobi.



Só é nome popular desde a baixa idade media, e achamo-lo documentado antes em Portugal que na Galiza: 'fecerunt inde testamentum ad iacob abba' (PMH, 1019); 'Petrus Pelagij cf. Fernandus. Iacobus scripsit.' (Sobrado, 1162)


15.- Samuel

Do hebraico Shemû'el, profeta do antigo testamento (DGN: 531-532).


Samuelhe/Samuelle (115 hab.- Tomiño, Pontevedra) ‹ 'quod habeo in perrochia Sancte Marie de Tebra et in Samueli' (CODOLGA, 1228) É frequente que os grupos -Vli, -Vlli › -Vlhe, ou bem -Vl.

Em Portugal:

Samuel (Albergaría, Aveiro)

Samuel (Felgueira, Porto)

Samuel (Soure, Coimbra)


Como antropónimo apresenta as formas:
'Adaulfus diaconus testis Samuel testis. Leovigildus tests.' (Lugo, 910),
'
Leovegildus presbiter ts. Samuhel ts. Mertinus ts.' (Celanova, 932)


16.- Salomon

Do hebraico Shelômôh, terceiro rei de Israel (DGN: 529).


Salmom/Salmón (Ribeira, Crunha). Nom hai motivos para crer que proceda da verba salmom (peixe).


Apresenta as formas:
'
quod fecit filius noster Salomon furtum.' (Sobrado, 932),
'
Salamon ts., Recemirus ts., Cresconius,' (Sobrado, 934).


17.- Sabbatus, Sambatus, Sabbatinus, Sabbatellus

Estes nomes derivam todos da verba hebraica shabbāt, 'repouso', dia sagrado, adicado a Deus, em que os judeus nom devem trabalhar.


Sábade (29 hab.- Dumbria, Crunha), do genitivo Sabbati.

Sabadom/Sabadón (2 hab.- Chantada, Lugo), da forma genitiva *Sabbatoni?Igual, em orige, ao seguinte:

'tibi Micaheli Pelagii de Fonti Sabbaton' (Sobrado, 1210)

Em Portugal:

Sabadão (Arcos de Valdevez, Viana do Castelo)

Sabadão (Ponte de Lima, Viana do Castelo)


Outra forma, dissimilada, é Sambatus, com genitivo Sambati:

Sambade (57 hab.- Carvalho, Crunha)

Sambade (8 hab.- Mugia, Crunha)

Sambade (0 hab.- Savinhao, Lugo)

Sambade (89 hab.- Tui, Pontevedra)

Sambades (9 hab.- Celanova, Ourense) ‹ 'una villa in Domenzi et alia in Sanbatis' (Celanova, 1012)

+Sanbadi (extinto, por Boimorto, Vila Marim, Ourense): 'in illo monte ubi dicent Valle Adulfi quod nunc vocatur Cerserelio qui est inter villa Sanbadi et Boimorto' (Celanova, 961)

Em Portugal:

Sambade (Afándega da Fé, Bragança)

Sambade (Paredes, Porto)

Sambade (Vila Nova de Cerveira, Viana do Castelo)


Como nome é frequente na Alta Idade Média: 'Sambadi cum omne mea hereditate in hanc testamentum manu mea fecit.' (Lugo, 816), 'Ermorfo ts. Sambati ts. Regaulfo ts.' (Celanova, 943), 'Tedon ts. Sanbati ts. Lusidio ts' (Celanova, 953)...


Os seguintes som derivados latinos. Primeiro, o diminutivo *Sabatellus, -i, nome que nom acho documentado na Galiza, mais que deveu ser comum.

Sabadelhe/Sabadelle (14 hab.- Cervantes, Lugo)

Sabadelhe/Sabadelle (19 hab.- Sárria, Lugo) ‹ 'alia in Sabbatelli' (Samos, 1098)

Sabadelhe/Sabadelle (San Martinho) (458 hab.- Pereiro de Aguiar, Ourense) ‹ 'ad terminum qui est inter Belli et Sabatelli' (CODOLGA, 1153)

Sabadelhe/Sabadelle (San Salvador) (27 hab.- Porto Marim, Lugo) ‹ 'vinea in ripa Minei, ubi dicunt Sabatelli' (Samos, 1009c)

Sabadelhe/Sabadelle (Santa Maria) (201 hab.- Chantada, Lugo)

Em Portugal:

Sebadelhe (Vila Nova de Foz Côa, Guarda)

Sebadelhe da Serra (Trancoso, Guarda)

Em Astúrias:

Sabadel de Navelgas (Tineo)

Sabadel de Troncedo (Tineo)

Sabadille (Santo Adriano)



Do derivado *Sabbatinus, -i 'Do Sabado'

Sabadim/Sabadín (35 hab.- Carvalho, Crunha)

Sabadim/Sabadín (77 hab.- Moranha, Pontevedra)

Em Portugal:

Sabadim (Arcos de Valdevez, VC)


O seu feminino achamo-lo em documento celanovês: 'in portione qui sunt mortui Domengo et Sabatina' (Celanova, 1005)

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