30 de xaneiro de 2010

Umha de celtas: Casa e Estábulo

Abstract: I) The Galician and Spanish word busto ˂ Proto Celtic *boustom (celtiber. boustom) ˂ PIE *gwow-st-om 'cow-stand' appears frequently in medieval Galician records as the neuter gender word bustum. II) Several Galiciam toponyms are formed as composites of an element tei- and a anthroponym expressed as a genitive. This tei- element is, probably, akin to the Basque tegi 'cottage', of Celtic origin.

A) BUSTO 'ESTÁBULO'


Busto é umha verba hoje extinta, ou quase extinta (Elixio Rivas recolhe no galego de Astúrias 'bustar. s. m. Pastizal de ganado vacuno; y busto. Os Oscos, Ast.', veja-se DdD), cujo significado remoto e literal é 'estábulo, estabelecimento para o gado'. As seguintes som algumhas das suas mais antigas citas na documentaçom galega medieval, nelas amossa ser umha palavra de género neutro, com acusativos bustum (que adianto que calca, opino, um acusativo celta neutro em -om), plural busta :

'Ego Letasia, manifesta quidem sum multis, set et multis manet notissimum, eo quod commiscui me in adulterio cum seruo Hermegildi, nomine Ataulfo, qui eius bustum tenebat, et comedimus de ipsis suis animalibus IIIIor uaccas LXa caseos furtim et adduxerunt me ante judicem nomine Froarengum episcopum.' (Sobrado 856)

'Eu Letasia, como moitos bem sabem e como para ainda máis é notabilíssimo, misturei-me em adultério cum servo de Hermegildo de nome Ataulfo, que do primeiro tinha um busto, e comemos furtivamente desses os seus animais quatro vacas e sessenta queixos, e levárom-me ante o juiz chamado Froaringo, bispo.'

No anterior fragmento lemos que Ataúlfo coidava dum busto propriedade de Hermegildo. E é deste estabelecimento do que obtivérom Ataúlfo e Letasia quatro vacas e 60 queixos; esta informaçom abonda para sabermos que um busto é o mesmo que um estábulo adicado à produçom de leite e carne. No seguinte, amossa-se a forma plural de género neutro busta, ao engadir a um certo inventário de vilas em propriedades do mosteiro de Samos as suas dependências económicas (salinas para obter sal, piscarias para peixe, busta para gado, e paratas, literalmente 'preparadas, fornecidas'):

'similiter et suas salinas et sua busta, paratas, piscarias vel quicquid ad ipsa loca pertinet' (Samos 872)

No seguinte documento, umha doaçom do rei Sancho I de Galiza (Sancho I Ordonhes), da-se a particularidade de se designar como busto a propriedade chamada Vargano. Esta é o actual lugar de Bargo (em Tojos Outos, Lousame), significando a verba galega bargo 'sebe, chanto' ˂ vargano, do PIE *werg- 'cercar'. Dalgum modo estamos ante umha repetiçom de conceitos entre busto, lugar cercado ou valado para o gado, e vargo.

'Ego exiguus famulus Christi Sancius, nutu altissimi regis rex (…) offerimus bustum cum omni prestatione sua, quod est in latere montis Luanie, quem dicunt Uarganum' (TA 927)

O seguinte fragmento é parte dum inventario dos bens doados ao mosteiro de Lourençá polo seu fundador. Nel cedem-se três bustos com 150 vacas e três touros. Quer-se dizer, cada busto continha umhas cinquenta vacas adultas, para cria e para a produçom de carne, leite e queijo, e um touro reprodutor. No entanto, os bois localizam-se nas senras, agrupados por jugos para o trabalho agrícola:

'Bestiarum quadrupedum inter mulos et kavallos X. LXXX equas in duas greges cum duos kavallos. per tres bustos Cm et La vaccas maiores cum tres tauros. per sanaras mille oues, D porcos in suas greges. ansaras CCCas et etiam supradictas hereditates populatas de ganato secundum usui sue terre. iuga bovum Cm, La. per senaras' (Lourençá 969)

'De bestas quadrúpedas entre mulas e cavalos dez. Oitenta éguas em duas greis com dous cavalos. Por três bustos cento e cinquenta vacas maiores com três touros. Por senras mil ovelhas, quinhentos porcos nas suas greis, gansos três-centos, e todas as arriba mencionadas herdades povoadas de gado segundo o uso da terra. Jugos de bois cento-cinquenta polas senras.'

A cifra é confirmada por um documento de Celanova, anterior no tempo, quando se contabilizam como cem as vacas contidas em dous bustos:

'uaccas inter bustos de Fiuula et Zataconi maiores que desuper resonant numero C' (Celanova 938)

A relaçom entre vacas e bustos é notória no seguinte fragmento, que nom obstante oferece cifras bem diversas das anteriores:

'bustos in monte Lene duos cum bacas tres. bustos in Nalare a sancto Martino in Lotani quatuor. busto in Monte Nigro cum vaccas. a Sancto Silvestre vaccas.' (CODOLGA: Lugo 998)

E para finalizar coa escolma das numerosas citas medievais desta verba, nos seguintes fragmentos percebe-se a perda da força desta verba, superada polo seu quase sinónimo villare, 'granja'; no outro temos que umha certa leira (larea 'terreno agrícola' ˂ PCl *laryā ˂ PIE *plaryā, nada que ver co latino glarea que origina o asturiano llera 'cascalho') recebe o nome de Bustello:

'villares et bustos que habeo communes cum meos heredes in monte Leporario qui iacet inter riuuos En et Gorgula, id est villare qui dicunt Auessos, alio villare que vocitant Cova de Vero, tercio villare que nuncupant Portellina, quarto villare que dicunt Messeganos de arbor furata, et quinto villare que vocitant busto Leoverici, sexto villare que dicunt Gresulfi, septimo villare que iacet in ripa de Gorgula, octavo villare que dicunt Campos, nono vilare que vocitant busto de Teoderedo, decimo villare que dicunt Piorneto, villare undecimo que dicunt busto de Copos, devodecimo villare que dicunt Currello clauso' (Celanova 940)

'alia larea quos iacet super rivulo Sorice quos vocitant Bustelo' (Celanova s. X)

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Seguindo a J.J. Moralejo (2007: 289-291) esta verba, bustum, parece ser a mesma que aparece numha inscriçom celtíbera (Botorrita I, A4) e que pode ser transcrita como boustom, reflectindo um estado evolutivo moi primitivo desta palavra derivada do composto proto-céltico *bou-st-om 'estáncia (para/de) vacas' (para outros compostos célticos com *-st- ver Villar & Prósper 2005: 260). A palavra galega e asturiana, por outra banda, amossa monotongaçom do céltico /ow/ em /u:/ (u longo), tal vez intermediado por /o:/ (ver Villar & Prósper 2005: 343, que com argumentos nom moi sólidos consideram existe umha diferente evoluçom dialectal de /ow/ em celtíbero, ˃ /u:/, e Hispano-Celta Ocidental, ˃ /o:/). Este /u:/ passa ao romance como /u/ (o longo ou breve e u breve teriam dado /o/, aberto ou fechado). Com todo, o vocalismo dos topónimos relacionados é moi diverso, como depois havemos ver. Por outra banda, a forma celtíbera boustom tem um paralelo em forma e fundo no bretom boutig, de idêntico significado, onde a segunda verba é um derivado do proto-céltico *teg- 'casa' (Villar & Prósper 2005: 260-262) da que hei falar na segunda parte deste post. Paga a pena revisar os componentes da verba:

i) PCl *bou- ˂ PIE *gwōw- 'vaca' (IEW: 482), de onde o latim BŌS 'boi, vaca, touro' (e o galego boi ˂ BŌVEM). Noutras línguas temos por exemplo antigo irlandês , bretom médio bou-tig 'estábulo'.

ii) A segunda é o PIE *stā- 'estar, situar' (IEW: 1004-1010), que é moi prolífico nas línguas indo-europeas como base de moitas outras verbas.

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Ainda que é tentador fazer provir a verba bosta (palavra sem étimo latino) da mesma forma pré-latina, o vocalismo nom o aconselha. Pode bosta proceder dum proto-céltico *u(p)o-st-am, composto de *u(p)o 'abaixo, baixo de' e *-st- 'estáncia; o que está'. É dizer, 'a que fica abaixo'. Provavelmente nom, mais...

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Como topónimo busto é frequente na Galiza, norte de Portugal, em Astúrias, Leom e Cantábria, chegando polo leste a Cantábria, Palência, Burgos, Álava e Navarra, e polo sul a Zamora, Valhadolid, Aveiro e Vila Real. Na Galiza temos:

i.- O tema base, em singular:

  • Busto (25 hab.- Avanha, Crunha)
  • Busto (18 hab.- Dumbria, Crunha)
  • Busto (78 hab.- Maçaricos, Crunha)
  • Busto (26 hab.- Messia, Crunha)
  • Busto (41 hab.- Róis, Crunha)
  • Sam Pedro de Busto (freguesia com 260 hab.- Santiago de Compostela, Crunha)
  • Busto / O Busto (8 hab.- Curtis, Crunha) ˂ 'de uilla Senior et de Busto et de Fagildi et de Suauar' (Sobrado s.d.)
  • Busto / O Busto (258 hab.- Santa Comba, Crunha)
  • Busto (0 hab.- Baralha, Lugo)
  • Busto (17 hab.- Friol, Lugo)
  • Busto (9 hab.- Návia de Suarna, Lugo)
  • Busto / O Busto (5 hab.- Láncara, Lugo)
  • Busto / O Busto (3 hab.- Pobra do Brolhom, Lugo)
  • Sam Facundo de Busto (freguesia com 74 hab.- Lalim, Ponte Vedra)
  • Busto / O Busto (176 hab.- Catoira, Ponte Vedra)
  • Busto / O Busto (70 hab.- Meis, Ponte Vedra)
  • +Busto (extinto? Por Sam Pedro de Présaras, Vila Santar, Crunha), em 'excepto uillare quod uocitant Busto, seu etiam et Rouoreto medio qui iuxta ipsum uillare iacet prope ecclesiam uocabulo Sanctum Petrum, in territorio ibidem Presares ' (Sobrado 955)

ii.- O tema base, em plural:

  • Bustos (19 hab.- Peroja, Ourense) ˂ 'et in parrochia sancti Christophori in loco qui dicitur Bustus' (CODOLGA: Osseira 1272).

iii.- O diminutivo, antigo, Bustelo ˂ Bustellum:

  • Bustelo (26 hab.- Arçua, Crunha)
  • Bustelo (21 hab.- Coristanco, Crunha)
  • Bustelo (81 hab.- Dodro, Crunha)
  • Bustelo (91 hab.- Dumbría, Crunha)
  • Bustelo (249 hab.- Ferrol, Crunha)
  • Bustelo (64 hab.- Laracha, Crunha)
  • Bustelo (62 hab.- Santa Comba, Crunha)
  • Bustelo (132 hab.- Teo, Crunha)
  • Bustelo (21 hab.- Touro, Crunha)
  • Bustelo (72 hab.- Narom, Crunha)
  • Bustelo de Abaixo (34 hab.- Carvalhedo, Lugo)
  • Bustelo de Arriba (17 hab.- Carvalhedo, Lugo)
  • Bustelinho (0 hab.- Carvalhedo, Lugo)
  • Santa Bárbara de Bustelo de Fisteus (freguesia com 19 hab.- Quiroga, Lugo)
  • Bustelo de Lor (50 hab.- Quiroga, Lugo)
  • Bustelo de Múrias (11 hab.- Negueira de Munhiz, Lugo)
  • Bustelo (1 hab.- Alfoz, Lugo)
  • Bustelo (2 hab.- Becerreã, Lugo)
  • Bustelo (20 hab.- Bóveda, Lugo)
  • Bustelo (11 hab.- Cervantes, Lugo)
  • Bustelo (3 hab.- Friol, Lugo)
  • Bustelo (20 hab.- Guitiriz, Lugo)
  • Bustelo (10 hab.- Láncara, Lugo)
  • Bustelo (5 hab.- Muras, Lugo)
  • Bustelo (8 hab.- Outeiro de Rei, Lugo)
  • Bustelo (12 hab.- Savinhao, Lugo)
  • Bustelo (0 hab.- Vilalva, Lugo)
  • Bustelo (55 hab.- San Cristovo de Cea, Ourense) ˂ 'tenet in Bustelo in feligresia sancte Marie de Covis' (CODOLGA: Osseira 1274); 'in loco qui vocatur Bustelo, sub parrochia sancte Marie de Covis in terra de Bolo' (CODOLGA: Osseira 1272)
  • Bustelo (55 hab.- Vilardevós, Ourense) ˂ 'villa Keizanes, et qum villa de Avetes, et inde in Bustello' (Celanova 931)
  • Bustelo (107 hab.- Junqueira de Ambia, Ourense)
  • Bustelinho (163 hab.- Junqueira de Ambia, Ourense)
  • Bustelo (5 hab.- Covelo, Ponte Vedra)
  • Bustelo (15 hab.- Estrada, Ponte Vedra)
  • Bustelo (33 hab.- Lalim, Ponte Vedra)
  • Bustelo (33 hab.- Silheda, Ponte Vedra) ˂ 'et Deza, uilla prenominata Oriolis cum adiunctionibus suis, Uendurio, Noceta, Bustello, Castro, Botanio et Benesegio, uilla Oliares cum adiunctionibus suis, Lanareo' (Sobrado 959)

iv.- O diminutivo antigo, em plural:

  • Bustelos (11 hab.- Monte de Ramo, Ourense)
  • Bustelos (41 hab.- Fornelos de Montes, Ponte Vedra)
  • Bustelos (34 hab.- Lalim, Ponte Vedra)

Nom hai, penso, diminutivos modernos em -inho, o que provavelmente pom em evidência que o termo deixou de ser apelativo já durante a Idade Média. Si houvo, porém, o duplo diminutivo Bustelinum: 'Toupinos et Bustelinum, que uobis Arias Pelagii dedit iure perpetuo' (TA: 1209)

v.- Formas adjectivadas:

  • Bustelo Grande (19 hab.- Guntim, Lugo)
  • Bustelo Pequeno (7 hab.- Guntim, Lugo)
  • Busto Redondo (9 hab.- Germade, Lugo)
  • Busto Frio (18 hab.- Samos, Lugo) ˂ 'villa que dicitur Autunio; et alia villa que dicitur Bustum Covum; sive et Bustum Frigidum; seu et villa Praducello' (Samos 878)
  • +Busto Frio, extinto, em 'item et alios montes quos uocidant Bustofrido' (CODOLGA: Santiago 947)
  • Busto Maior (1 hab.- Sobrado, Crunha) ˂ 'et alia uilla que uocitant Letularios et alia uilla in Busto Maiore et uilla Laureta et uilla Custodia' (Sobrado 945); 'in Gitar et in Balio, quantum inuenerint olim fuisse Superaddi. Bustum Maiorem, Turanti et Bidueirus, quomodo diuiditur de Codessoso' (Sobrado 1142)
  • +Busto Plano, extinto?, em 'do etiam uobis meam porcionem de Plataneiro et de Bustoplano et de Guidulfi' (Sobrado 1165)
  • Busto Seco (6 hab.- Porto Doçom, Crunha) ˂ 'Sancte Marie de Ermo et Sancti Felicis de Siaria coniucti fuimus in illo villare de Busto Sicco' (TTO 1038)
  • Busto Meao (3 hab.- Valadouro, Lugo)
  • Gusto Meao (40 hab.- Lóvios, Ourense)
Os dous anteriores procedem dum étimo bustu medianu, coma no seguinte fragmento:

'Calvos et Sancto Stephano medietate et Platanoso et Bustu mediano, exceptis hereditate de ripa Arnogie' (Celanova 1021)

Em particular, a forma Gusto procede de Busto polo mesmo caminho que volpe ˂ lat. VULPEM 'raposo' veu dar golpe no norte da Galiza; e pola mesa verea que Suevos deu Suegos.

  • Visticovo (23 hab.- Canhiza, Ponte Vedra)
Estamos aqui, penso, ante umha forma primitiva similar à seguinte, co significado de lugar côncavo, deprimido no terreno:

'villa que dicitur Autunio; et alia villa que dicitur Bustum Covum; sive et Bustum Frigidum; seu et villa Praducello' (Samos 878)

'in istas villas que sunt in Lauzara, id, est: Bustum Covum, Autunino, Villela, item Villela, Lausatela, Bustum Fridum, Praducelum' (Samos 909)

O surpreendente é o vocalismo, com duas i. A primeira tal vez poida dever-se a assimilaçom da segunda, mais nom podo explicar a segunda. Fenómeno similar da-se noutros topónimo que logo havemos ver, como Bustiguilhade. Pode haver influxo dumha verba *westi- como a que origina o galês gwesti 'quarto, vivenda' (IEW: 1170-1)? Provavelmente nom; esta verba nom vem recolhida na documentaçom galega medieval.

vi.- Formas acompanhadas dum antropónimo em genitivo:

  • Busto Freám / Bustofrean (0 hab.- Vilalva, Lugo), deve proceder de Bustu Fraujani, do antropónimo germánico Frauja 'Senhor', comum na Galiza alto medieval na forma Froia / Froya / Froga. Freám é topónimo comum em todo o país: o Dom Freám de Lalim era ainda Don Fruan em 1258 (Souto Cabo 2008, doc. 82).
  • Bustarvelhe / Bustarvelhe (2 hab.- Negueira de Munhiz, Lugo). Pode proceder dumha forma como Bustar Veli, sendo bustar um apelativo documentado nas Astúrias, e que guarda com gusto a mesma relaçom que vilar com vila; neste caso o antropónimo Veli é o mesmo que origina topónimos como Velhe (Ourense, e Cesuras na Crunha). Mais tamém pode proceder de Bustu Arveli ou Arvelli. Existe um Ervelhe na Ponte Nova, em Lugo.
  • Bustiguilhade / Bustiguillade (12 hab.- Porto Doçom, Crunha) ˂ 'cum suis casalibus et hereditatibus cum Busto Guilade, cum uillare de Inxerto' (TTO 1163) ˂ 'pro hereditate Bustum Quiliadi et Pausa Carrum et villare Caluelle et Couam Benton et uilare Mirum quod uocitant Enxertum.' (TTO 1038) Seguramente de Bustu Wiliati, do antropónimo germánico Wiliatus ˂ PG *Wiljahaþuz.
  • Bistipói (18 hab.- Porto Doçom, Crunha). De Bustu Pauli ou *Vesti Pauli, 'Busto de Paulo'.
  • Bistijoám / Bistixoán (3 hab.- Guitiriz, Lugo). De Bustu Iohanni ou *Vesti Iohanni, 'Busto de Joám'.
  • Bistulfe (8 hab.- Palas de Rei, Lugo). De Bustu Wulfi ou ou *Vesti Wulfi. Do antropónimo germánico Ulfus ˂ PG *Wulfaz.
  • Busgardim / Busgardín (7 hab.- Rio Torto, Lugo). De Bustu Gardini. Do antropónimo germánico Gardinus ˂ PG *Gardīnaz. A apócope da sílaba -to de busto é similar à que se da em Moncalvo, por Monte Calvo.
  • Busgulmar (10 hab.- Nogais, Lugo). De Bustu Gualamari. Do antropónimo germánico Gualamarus ˂ PG *Walamērjaz.
  • Busmulhám / Busmullán (12 hab.- Pedrafita do Cebreiro, Lugo). De Bustu Emiliani, 'Busto de Emiliano'.
  • Bustate (5 hab.- Muras, Lugo). De Bustu Tattae?. Do antropónimo germánico masculino Tata, que tinha um derivado Tatina. O genitivo latino -a, -ae é raro (mais nom inaudito) na onomástica germánica galega.
  • Besteburiz (7 hab.- Ourol, Lugo). De Bustu Eburici ou de *Vesti Eburici. Do antropónimo germánico Eburicus ˂ PG *Eburarīkaz, conhecido por exemplo dum rei suevo, filho do grande rei Miro. Existe o topónimo Buriz em Muras, e em Guitiriz.
  • Besterrejulfe / Besterrexulfe (9 hab.- Ourol, Lugo). De Bustu Regiulfi ou *Vesti Regiulfi. Do antropónimo germánico Regiulfus do PG *Raginulfaz. Existe o topónimo Rejulfe / Rexulfe, em Ourol.
  • Vistuíde (32 hab.- Rodeiro, Ponte Vedra) ˂ 'Lupus Petri de Feylde, Petrus Lupi de Bustuide, ts.' (CODOLGA: Osseira 1251) O segundo elemento do topónimo deve ser o mesmo antropónimo que origina Viloíde (Monterroso, Lugo). Tal vez o nome árabe Oliti ˂ walīd?
  • +Busto Calvoni (extinto, por Leboreiro) em 'in Leborario villar vel busto Calvoni adversus Tondellanos, Campello, Prato, Osora' (Celanova 961) Calvonii é o genitivo do antropónimo latino Calvonius. Existe em Leom umha vila chamada Castrocalvón e que deve ter idêntica orige.
  • +Bustimori (extinto, polo Deça) em 'ereditate in Deça in ualle de Graua, subtus monte Bustimori' (CODOLGA: Carvoeiro 1110). Do antropónimos Maurus, genitivo Mauri, que se converte na nossa geografia quer em Moure, quer em Mor?
  • Vichocuntim / Vichocuntín (5 hab.- Cerdedo, Ponte Vedra). Pode que de *bustu *Cuntini, onde o antropónimo germánico Gundinus/Cuntinus é frequente na Alta Idade Média. Com todo, nom é doado explicar o passo Bustu ˃ Vicho (mediado por Busti ˃ Visti ˃ Vichi? Mais como explicar entom ˃ Vicho?).

Ademais, algumhas destas formas perdérom a primeira parte do topónimo, ficando reduzidas a só o antropónimo. Do seguinte sabemos que foi assi com segurança:

'in ripa Minei monasterio quod dicunt Hicorantes cum omnia sua edificia vel ilas piscarias quas ibidem sunt in Mineo super portum Ambas Mestas, qui ex fisco avorum nostrorum fiscales vocate sunt tam ex una parte ripa fluvii quam ex altera, seu bustum Paulini' (Samos 861?)

Corresponde-se, penso que sem dúvida, cos modernos lugares de Poim de Arriba e de Abaixo, com simples perda de /l/ intervocálico:

  • Poim / Poín De Abaixo (2 hab.- Peroja, Ourense)
  • Poim / Poín De Arriba (22 hab.- Peroja, Ourense)


vii.- outras


  • Busto de Frades (45 hab.- Briom, Crunha) ˂ 'inter Raniam Longam et Bustum de Frades in filigresia Sancti Iuliani de Luania' (TTO 1238)
  • Bustabade (10 hab.- Somoças, Crunha) De 'Busto do abade'?

O significado e orige dos seguintes nom me é evidente. Poida que nom correspondam aqui:

  • Bustavalhe / Bustavalle (43 hab.- Maceda, Ourense) ˂ 'per iudicium in cauto de Maceeda et in cauto de Bustavali' (CODOLGA: Rivas de Sil 1232)
  • Vistavós (43 hab.- Muros, Crunha) ˂ 'hereditate mea propria quam habeo in villa Aamir subtus monte de Pigna, decurrente riuulo Bustauolos, concurrente ad ecclesiam Sancti Saluatoris' (TTO 1157)
  • Bustaregas (22 hab.- Paradela, Lugo)
  • +Bustarenga (extinto) em 'hereditatem meam propriam pernominatam Bustarenga que habeo de parte comitisse domna Goncina' (Celanova 1138)
  • Buscalte (7 hab.- Germade, Lugo)
  • Sam Paio de Buscás (freguesia com 543 hab.- Ordes, Crunha)
  • Bestemuz (Muras, Lugo) O próximo Ponte Bermuz procede do sintagma com patronímico 'Ponte Bermuez', de Bermudici, o que leva a suspeitar umha orige similar, senom comum, para Bestemuz; mais busto provavelmente deixou de se empregar antes da generalizaçom destas formas patronímicas.
  • Bichicán (23 hab.- Vilalva, Lugo)


B) *TEI 'CASA'

Outro celtismo comum na geografia galega é *tei, como constituinte de topónimos compostos, e mais nos topónimos Tis e Teis; mais com respeito ao anterior (busto) devemos dizer que o ámbito territorial de *tei é moito máis reduzido -acha-se limitado à Galiza-, e carecemos de documentaçom medieval que amosse o seu emprego apelativo. Assi pois, evidências para a interpretaçom desta forma temo-las nos próprios topónimos compostos e máis nas línguas do nosso entorno (basco, latim, línguas celtas).

Vamos primeiro cos topónimos. Estes já fórom estudados minuciosamente polo professor Edelmiro Bascuas (2006: 62-75), quem atribue o primeiro elemento à evoluçom dum étimo *tagi- '*lodeiro' ˃ *tai- ˃ *tei, baseado no PIE *tā- 'derreter-se, apodrecer', que tendo evitado a documentaçom como apelativo, teria-se mantido vivo na fala até o século XI ou XII. Eu secundo a sua analise, a nom ser na identificaçom do próprio elemento *tei-, que considero é o mesmo que o vasco tegi 'casa', um moi provável celtismo.

  • Tadoufe (14 hab.- Láncara, Lugo) ˂ 'in Sancto Iohanne de Terlisti loco predicto Teiadaulfi' (Samos 1125) A forma antiga Teiadaulfi estava composta do primeiro elemento *Tei e máis do antropónimo Adaulfi, genitivo do nome germánico Adaulfus, vulgar na Galiza medieval, e que tem deixado vários topónimos: Adaulfe (em Vilalva e Chantada) e Adoufe (na Estrada e em Briom). O significado do sintagma *Tei Adaulfi é simplesmente 'Tei de Adaulfo'.
  • Teibade (9 hab.- Paradela, Lugo) Possivelmente deva interpretar-se com *Tei Bade, onde o segundo elemento é o mesmo que achamos em solitário nos topónimos Bade de Sárria e Gondomar. Devem ser as evoluçons locais do genitivo Baddi do antropónimo germánico Baddo.
  • Teibalte (5 hab.- Sárria, Lugo). De *Tei Balti, onde o segundo elemento é o genitivo do antropónimo Balto/Baldo, que gerou outros topónimos na Galiza: Balde (Carvalheda de Ávia) e pode ser que tamém Vilabalde (Sober).
  • Teibel (50 hab.- Savinhao, Lugo). Provavelmente de *Tei Belli, sendo Belli o genitivo do antropónimo latino Bellus.
  • Sam Juliám de Teibilide (58 hab.- Samos, Lugo). De *Tei Belliti, onde Belliti é o genitivo do antropónimo Bellitus, comúm na Galiza alto-medieval. Outros topónimos de igual orige som Belide (Cospeito) e Lamabelide (Páramo).
  • Teigueselhe / Teigueselle (14 hab.- Lugo, Lugo). O segundo elemento do topónimo é o resultado do genitivo Guiselli, do antropónimo germánico Wisellus (Uisellu, Sobrado 941).
  • Teiguín (13 hab.- Samos, Lugo). Provavelmente *Tei Guim, sendo o segundo elemento o resultado normal do genitivo Wini do antropónimo germánico Winus.
  • Teilalhe / Teilalle (5 hab.- Baleira, Lugo). De *Tei Lalli. O nome Lalli /Lallus da-se nos países germánicos, e tamém na Galiza na Alta Idade Média.
  • Teilhor / Teillor (16 hab.- Melide, Crunha). Provavelmente de *Tei Lauri, genitivo de Laurus. A palatalizaçom do /l/ inicial pode dever-se ao influxo da iode (por fonética sintáctica) do elemento tei.
  • +Teilide (extinto, por Íbias, hoje em Asturias) em 'sancte Marie de Rostrigos terciam partem de illo casali de Teilidi et medium de illo plantatu de Monte Maiore' (CODOLGA: Meira 1077); 'hereditate mea propria, quam habeo in Teilidi' (CODOLGA: Meira 1180); 'quam habeo uel habere debeo in Pausada, in Auteiru, in Teilidi, in Cesauai, in Mauritan, in Baluir, in Pinario' (CODOLGA: Meira 1208); 'in casali de Infanzones et in casali de Teilidi, discurrente ad ecclesiam sancte Marie de Rostregos' (CODOLGA: Meira 1229). Composto de *Tei e Lide, genitivo do antropónimo germánico Litus, frequente na Galiza. Em Portugal conheço um Campolide.
  • Teimende (48 hab.- Parada de Sil, Ourense). De *Tei Menendi, genitivo de Menendus, antropónimo que na Idade Média equivalia a Hermegildus ou Hermenegildus ( ˃ *(Er)meneildus ˃ Menindus/Menendus?).
  • Teimende (56 hab.- Arvo, Ponte Vedra). Com idêntica etimologia que o anterior.
  • Teimói (18 hab.- Oinço, Lugo) ˂ 'villas nostras proprias, que nuncupant Teimoy et Villam Medianam' (Samos 1064); 'villa vocabulo Teymoi in territorio Gallecie, in valle Homano, rivulo discurrente Homano' (Samos 1080). O segundo elemento do topónimo deve corresponder-se com Mói (Doçom, Ponte Vedra), possível genitivo dum antropónimo como Modus (ADN: 1127-1128) ˂ PG *Mōdaz 'Valor, Audácia': *Tei Modi ˃ Tei Mói.
  • +Teinande (extinto, por Lugo; actual Sam Salvador do Outeiro de Camoiras?) em 'ecclesiam sancti Saluatoris de Teinandi, ecclesiam sancti Saluatoris de Rimilani' (CODOLGA: Lugo 897), 'ecclesiam de Teinandi cum adjunctionibus suis (ST). ecclesiam sancti Joannis de Pena' (CODOLGA: Lugo 1160) de *Tei Nande, derivando Nande de Nandi, genitivo do antropónimo germánico Nandus, que tem deixado máis de média dúzia de topónimos na Galiza.
  • Teinogueira (95 hab.- Poio, Ponte Vedra). O segundo elemento é aqui umha árvore, a Nogueira, empregada com certa frequência como sobrenome com orige num outro topónimo, senom num alcume (ainda hoje Nogueira é apelido): 'Martin Martiz de Viana çapateiro, Johan Nogueyra...' (CDGH, 1291)
  • Teiquisói (21 hab.- Páramo, Lugo). De *Tei Quisoi. O antropónimo é penso um genitivo do antropónimo germánico Vizoi (nom infrequente, como em 'Atan ts. Vizoi ts. Abedon ts.', Celanova 916). Provavelmente é o mesmo nome o que temos no topónimo Carguizói, de *(Casa Guizói). A alternáncia qu-/gu- é frequente como resultado da adaptaçom da /w/ germánica.
  • Teivente (73 hab.- Sárria, Lugo). De *Tei Valenti ou de *Tei Ventii (sendo este último um nome celta responsável, por exemplo, do topónimo leonês Villavente).

Hai outros topónimos que semelham ter o mesmo primeiro elemento, mais que som de difícil etimologia:

  • Teixim / Teixín (7 hab.- Melide, Crunha).
  • Teixiz (5 hab.- Oinço, Lugo) ˂ 'item in Humano in villa que dicunt Teicidi' (Samos s. XI); 'inter duos rivulos Homano et Teixeirua, sub monte Acuto, sub aula sancti Salvatoris et sancta Marie; villa prenominata Teixiz;' (Samos 1095)
  • Teicelhe / Teicelle (35 hab.- Lugo, Lugo) .
  • Teicide (11 hab.- Paradela, Lugo) ˂ 'et contramutavi ea Oveco Temirizi pro alia sua villa nomine Teucint' (Samos 1064)
  • Teilonje / Teilonxe (17 hab.- Sárria, Lugo) ˂ 'tercia villa que dicitur Sanctum Petrum de Teiloni integra cum omnibus edifitiis' (Samos 1011)

Tamém hai outros topónimos que podem ser formas plurais de *Tei (seguindo a Bascuas, que propom um étimo *tāg-s, consonte à sua proposta, pode-se propor *teg-s, que teria originado o mesmo topónimo, dando conta das formas intermédias, se o som, Teix e Teiz) :

  • Sam Salvador de Teis (freguesia com 2330 hab.- Vigo, Ponte Vedra) ˂ 'Sancti Saluatoris de Teix integra cum ipsius regalengo' (CODOLGA: Tui 1156); 'iudice Fernandus Floyat de Teis, episcopus Egidius in Tude' (CODOLGA: Osseira 1250)
  • +Teiz (extinto, polas Nogais?), em 'per suos terminos de Trasoi et per termino de Teiz, per termino de Nullan, per termino de Pausata' (Samos 1079)

Voltemos agora à interpretaçom destes topónimos. Segundo Bascuas (2006, p. 53 e seguintes) a sua orige pode ser um derivado *tāg- da raiz indo-europea *tā- 'derreter-se, apodrecer. Desta mesma forma derivaria o nome do rio Tejo, antigo Tago (houvo outro Tago na Galiza) cujo provável significado teria sido algo assi como '(rio) lodoso', e máis o nome dalgum peixe. Seguindo coa proposta do professor, o elemento *tei dos topónimos arriba tratados seria o resultado dum antigo apelativo *tāge ou *tāgi, co mesmo valor semántico que lama ou lameiro, enquanto a 'lugar encharcado, empregado na produçom de pasto'. Lamentavelmente, Pokorny nom documenta nengum apelativo vivo em nengumha língua indo-europea baseado neste lema *tāg-. o que resta certa solidez aos argumentos apontados.

Por outra banda, eu som da opiniom de que o elemento *tei dos anteriores topónimos é idêntico ao apelativo basco tegi 'alpendre' (ver J. Álvarez Delgado, Etimologiía de Attegia y sus relacionados, em Boletim de Filologia vol. X: 64-76) provavelmente um celtismo, onde a palavra basca e os topónimos galegos diferem na preservaçom do /g/ na primeira (no galego teria-se perdido por efeito da leniçom romance ou celta). Como é bem sabido umha boa parte do léxico da língua basca está constituído por prestamos tomados das línguas celtas (andere 'mulher', cf. PCl anderā- 'mulher nova': ) ou do latim (pake 'paz' ˂ lat. vulgar PACE, errege 'rei' ˂ lat. vulgar REGE...), e esta mesma verba tegi teria a mesma orige forasteira: cf. antigo irlandês tech, antigo galês tig, antigo córnico ti 'casa', bretom antigo boutig 'estábulo'; latim tegere 'cobrir', tegula 'telha', tēctum 'teito'... E com representantes tamém nas línguas germánicas, bálticas, eslavas, ou em grego; todas da raiz indo-europea *(s)teg- 'cobrir' (ver IEW: 1013-1014).

Assemade, e reconhecendo que existem na Galiza topónimos compostos de Lama + Nome de Possessor (Lama Belide ˂ Lama Belliti, Lamacemom, Lamansián ˂ Lama Ansilani, Lama Sendim, Lama Marim...), o que garante a consistência semántica dos sintagmas propostos por Bascuas, som moito mais frequente aqueles topónimos compostos com casa, car-, sá, ou similar, em referência a um lugar de residência.

~o~o~o~

Em conclusom: a toponímica galega preserva um antigo vocábulo *tei, provavelmente co valor de 'casa' (sem descartar a proposta de Bascuas, *tei- ˂ *tage ou *tagi 'lodeiro', que nom possue cognatos que sejam apelativos vivos em outras línguas), derivado do PIE *(s)teg- 'cobrir' e cognato do basco tegi 'alpendre', de provável procedência celta, relacionado co antigo irlandês tech, antigo galês tig, antigo córnico ti 'casa'.


4 comentarios:

  1. Grande artigo. Aventuro algumas soluções a esses topónimos escuros com Tei- na seguinte ligação:

    http://nomesdopais.blogspot.com/2011/12/toponimos-celtas-ii-tema-tegi.html

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  2. Guaue! Graças, moito reconhecido! :-)

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  3. interesantísimo artigo!!, impresionante o de busto << *bou-st-om

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    1. Si. É umha etimologia moi interessante, proposto penso que por Moralejo, e já adiantada por Hubschmid em 1964 (cf. Moralejo 2007 pp. 221-222, p. 290, e outras: http://ilg.usc.es/agon/wp-content/uploads/2010/09/Callaica_Nomina.pdf). A documentaçom medieval certamente apoia esta proposto, polo menos na sua dimensom semántica.

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