13 de novembro de 2014

Xuanzo, Xuances, Ledoño

1. Xuances é freguesia no concelho de Xove, Lugo, baixo a padroádigo de Sam Pedro; era Juanses em 1286 e Joanses em 1291 (cf. ITGM: XUANCES). Temos tamém a aldea de Xuanzo, em Cullergondo, concelho de Abegondo. Deste lugar temos um testemunho antigo num documento datado em 911 e relativo ao mosteiro de Cis, e que segundo a ediçom de Carlos Saez (GFA doc. 12) di:

“inter ambos Iohoancios. per petram que diuidit inter Presidium [Presedo] et Ioancium [Xuanzo] et Villar”

Ambos os dous topónimos carescem de étimo latino; na minha opiniom som formas derivadas do céltico *yowanko- 'jove, novo' (breton yowanc, irlandés antigo óac), procedente dumha forma anterior *yuwanko- (Matasovic 2009: 436-437), e cognato de, por exemplo, o inglês young 'novo' (do proto-germánico *junga- 'novo', Kroonen 2013: 274-275), do sánscrito yuvasa- idem, e do latino *iuvencus 'touro novo' (De Vaan 2008: 317). Cognato tamém do nosso jovenco 'almalho; touro novo', e orige do nome de duas freguesias chamadas Xuvencos, nos concelhos do Savinhao e de Boborás, esta última documentada como “Iouencos” em 956 (GFA doc. 58). Em última instáncia todas estas formas procedem dum indo-europeu *h2iu-Hn-ko-, derivado possessivo de *h2oi-u- 'vida, idade', donde tamém o antropónimo Aio (Aio Temari) na táboa de hospitalidade do Courel.
Voltando aos nossos topónimos célticos:

Xuances < *yowank-is

Xuanzo < Iohoancios / Ioancium < *yowank-yo-

Xuances presenta umha desinência frequentíssima na toponímia pré-latina galega que em principio semelha ou bem a adaptaçom dum nominativo atemático, como em Saris < Sars (assi transmitido por Pompónio Mela: “Tamaris secundum Ebora portum, Sars iuxta turrem Augusti titulo memorabilem”), ou bem um locativo ou acusativo plural latino; nengumha destas opçons convencem. Pola sua banda Xuanzo presenta um sufixo -yo-, trivial no material indo-europeu, que provavelmente procede do acusativo latinizado *iouanciu/*iōanciu- dum topónimo autóctone *yowankon (nominativo singular, neutro).

Ambos teriam experimentado a mesma evoluçom. Num primeiro momento deu-se a reduçom do ditongo ow > ō (este fenómeno estava em marchar no hispano-celta da Galiza ao princípio da nossa era, compare-se o antropónimo Cloutius do PIE *klewto- 'sona, fama' com Vesuclotus '(o que tem) boa sona', de *wesu- 'bo, excelente' e *klewto- > celta *klowto- > celta galaico serôdio *klōto-; cf. Prósper 2002: 211 e 423) o que nos levaria diretamente a umha das formas documentadas na idade media:

*yowank-yo- -> *yōancion > Ioancium > xuanzo (dissimilaçom das vogais em hiato)

Para Xuances:

  *yowank-is > *yōancis (ow > ō) > *Ioances (adaptaçom ao latim vulgar / romance) > Xuances.

Note-se que a palavra busto, que no passado designava um lugar ou estabelecimento para vacas, usualmente situado num lugar elevado (para disponher de pastos verdes todo o ano?), procede dum hispano-celta *bow-sto- ‘lugar para vacas’ > būstu-, com –ow- > -ū-.

Outros topónimos galegos pré-latinos poderiam amossar esse mesmo fenómeno céltico, com reduçom do ditongo /ow/; como mera possibilidade: Buazo < *Bowatyon, e pode que Luaña, Luama. Ficam para outro dia. Pola contra, outros amossam provavelmente perda de /w/ intervocálico: Noia [ˈnɔja̝] < Novium (se é que o o tónico aberto nom foi causado por metafonia; doutro modo poderia proceder dum o longo).

Sobre a perda de w intervocálico: Ledoño, em Culheredo, era Letaonio em 830, do que deduzo que i nome deste lugar é um derivado do celta *(p)litawī- “largo, amplo”: *(p)litawonyon > *Litaonyu- (forma proto-romance) > Letaonio > Ledoño.


BIBLIOGRAFIA:

De Vaan, Michiel (2008). Etymological Dictionary of Latin and the other Italic LanguagesLeiden: Brill. ISBN 978-90-04-16797-1.
* GFA = Sáez, Carlos (2003) La Coruña. Fondo Antiguo (788-1065) 1.  Alcalá: Universidad de Alcalá. ISBN 84-8138-597-2.
* ITGM = Martínez Lema, Paulo e outros (2008-2012) Inventario Toponímico da Galicia Medieval (http://ilg.usc.es/itgm/).
* Kroonen, Guus (2013). Etymological Dictionary of Proto-Germanic. Leiden: Brill. ISBN 978-90-04-18340-7.
* Matasovic, Ranko (2009). Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill. ISBN 90-04-17336-6.
Prósper, Blanca María (2002). Lenguas y religiones prerromanas del occidente de la península ibérica. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca. ISBN 84-7800-818-7.


10 de novembro de 2014

Sigrás < Cidriales < *Citreales

O topónimo Sigrás, dumha freguesia no concelho de Cambre, remete-nos a um abundancial do latino CITREUS 'cidro', ou isso opino à vista da seguinte mençom:
"villa que dicitur Cidriales cum ecclesia Sancti Iacobi"
Que pertence a um documento do ano 932, hoje preservado no arquivo do reino de Galiza, que foi editado por Carlos Sáez no 2003 (Galicia 3. ISBN 84-8138-597-2). No documento a rainha Aragonta fai umha generosa doaçom ao mosteiro de Cambre.

Sem este documento seria impossível atribuir essa etimologia ao devandito topónimo. Eis a importáncia extrema de conhecer a história dum topónimo previamente a propor umha etimologia, se nom queremos que essa etimologia poda ser sacudida pola brisa.

9 de outubro de 2014

mapsengine.google.com + Nomenclator básico 2013

Nom conhecia as novas funcionalidades de Google Maps (em mapsengine.google.com). Som surpreendentes: permitem, por exemplo, importar folhas de cálculo (pares longitude + latitude, com outros dados como o nome dum lugar) ou obter umha folha de cálculo desde os dados dum mapa feito a mam.

Juntando essa aplicaçom como, por exemplo, os nomencladores que se podem baixar no portal Open Data http://datos.gob.es/?q=catalogo&title=nomencl, podemos obter com certa facilidade mapas como o seguinte, um experimento rápido que amossa a distribuiçom complemetaria dos topónimos Sar ( < Sala) e Sa/Saa ( < Sala) na Galiza.

https://www.google.com/maps/d/edit?mid=zFKUToPIla14.kqdlbagk882Y


Ou, topónimia baseada em antropónimos germánicos contendo o elemento wulfaz 'lobo' (seguramente incompleto):

6 de outubro de 2014

De Viis Maris

Sem moito preámbulo, eis a minha traduçom das secções correspondentes ao NW da península ibérica do De viis maris, um itinerário marítimo inglês do século XII que conhecim ainda hai pouco numha entrada de Arqueotoponímia, o blog de Andregoto Galíndez. Bo proveito!

~o~o~o~

III. Despois, en terra do rei de Navarra, hai um monte grande chamado Funtrabi [Fonterrabia/monte Jaizquíbel], que dista três milhas[i] de Huarcha. Despois hai um bo porto que chamam Sanctus Sebastianus [Sam Sebastiám/Donostia] de Navarra, e na entrada deste porto hai umha grande torre de pedra. Despois está a ilha que chamam de Catharie [Guetária], e hai aí porto bo e profundo, e a devandita ilha hai que a deixar á dereita ao entrar. Despois vem o rio de Castre [Castro Urdiales] que divide a terra do rei de Navarra das do rei de Castela, se bem nom hai ali nem porto nem ancoradoiro.

Despois em terras do rei de Castela na ribeira do devandito rio de Castro hai um monte grande chamado Castro, do que toma o seu nome o rio. E despois em terra do rei de Castela está o burgo chamado Ordialis [Urdiales]. Despois em terra do rei de Castela hai um porto bo e profundo chamado Santa Maria de Portu [Santa María del Puerto, Santoña], e hai aí um monte grande que chamam le Vilan [Monte Buciero?] pola similitude cuns viláns no cume desse monte[ii]. E antes deste porto hai umha ilha que chamam Sam Martinho de Laree [Laredo] que se deixa ao lado esquerdo ao entrar ao porto. Despois em terra do rei de Castela hai um bo porto que chamam Dudel [?], e no medio del hai umha ilha. E a ambos lados a entrada é ampla e profunda.

Despois estám os montes de Sore [Picos de Europa?] que dividem as terras do rei de Castela das do rei de Sancto Iacobo [Santiago], e dim que nom hai montes máis altos em toda Hyspania [Espanha / Península Ibérica]. Compre saber que a terra onde habitam os Bascos chama-se Biscaia, que começa na devandita ilha de Guetária e chega até Santonha.

IV. Despois, na terra do rei de Santiago nom longe dos montes de Sore, hai um porto bo ao que chamam Melias [?]. Despois hai um porto ao que chamam Giguin [Gijom], mais nom é bo, e hai aqui um monte grande ao que tamém chamam Gijom. Despois na terra do devandito rei hai um porto e vila chamada Abilis [Avilés] e hai aí um castelo chamado Gozsun [Gozom] ainda que nom hai aí um bo porto exceto por necessidade e co mar alto. E hai aqui uns montes que chamam Bumais, e a toda essa província chamam Bumais. E entre Gozom e Sanctum Saluatorem [Sam Salvador de Oviedo] ao que chamam lugar santo e é requisito de peregrinos, som cinco léguas. Despois em terra do devandito rei hai um bo ancoradoiro ao que chamam Artede [Puerto de Vega, Navia, a 4km do lugar de Artedo] e o devandito ancoradoiro está junto ao castelo que chamam Caprafiga [Cabrafigal, Navia].

Despois em terra do devandito rei está o porto e bo burgo que chamam Ribadure [Ribadeu], e máis é o seu porto bo e profundo e bo de capacidade, ainda que é melhor polo lado esquerdo. Despois em terra desse rei hai um monte grande e excelso que chamam Mundike [Mondigo], que dista de Ribadeu umha milha, e este monte deve deixar-se á dereita ao entrar. E despois em terra desse rei hai um porto bo e profundo e de boa capacidade [Celeiro?], e cuja entrada está bem longe do porto, onde hai umha pequena ilha á esquerda segundo se entra [Ansarom] e junto a que hai um ancoradoiro suficientemente bo [Portocelo]. Daí a quase umha milha hai umha aldea que chamam Sanctus Iohannes de Koua [Sam Joám de Covas]. Despois em terra desse devandito rei hai umha ilha, a que chamam Sancti Michaelis Cunicularia [Coelheira], dita assi porque hai nela quantidade de coelhos, e essa ilha fica entre o porto que chamam Stephanum de Bimarre [???] e portum de Sore [Sor ~ Porto do Barqueiro]. E do outro lado desta ilha hai umha entrada boa e profunda até o porto do Sor, e esse porto do Sor é amplo e profundo, se bem nom hai acô ancoradoiro devido às grandes ondas do mar que chegam diretamente. E hai aqui umha vila boa e igreja chamada Sancta Maria de Baris [Santa Maria de Bares]. Ainda assi dentro deste porto longe da entrada hai recetáculos bos e seguros, se bem as naves nom poder sair do porto do Sor quando sopra o vento do noroeste. E hai aqui à entrada do porto á dereita segundo se entra um monte grande chamado Zagunel de Baris [Semáforo/Cabo de Bares?].

Despois na terra deste rei, imediatamente despois de Zagumel de Bares, hai um porto ao que chamam Ortigare [Ortigueira], e a entrada do seu porto polo médio é segura, e entrando á dereita hai umhas pedras altas e gráceis às que chamam as Aguilles de Ortigaire [Os Aguillóns/Cabo Ortegal]. E aí no cúmio dum monte alto está o castelo de Sancti Stephani de Ortingaire [Castelo do Casom, Devesos?], se bem nesse porto nom hai um bo ancoradoiro devido à chegada direta das grandes ondas do mar. Despois em terra daquel rei hai um porto bo e profundo ao que chamam Sedaire [Cedeira], e à entrada deste porto hai um monte grande ao que chamam Candieris [Monte Candieira] junto ao que está a via de navegaçom para evitar as lajes que hai à entrada desse porto, à dereita segundo se entra, e que estám cobertas co mar alto. E nesse porto está a igreja de Santa Maria do Mar. E despois em terra do devandito rei hai um monte grande que se interna longamente no mar e ao que chamam Prior [Prior]. E entre Cedeira e este monte nom hai porto nem bo ancoradoiro porque o fundo do mar é rochoso.

E imediatamente despois de deixar atrás o monte esse ao que chamam Prior hai à esquerda três portos ótimos reunidos, nomeadamente Inne de Briun [Briom, Ferrol] et Iunckare [=Junqueira = ria de Ares] et le Far [Burgo de Faro, Culheredo]. A entrada do porto de Inne está entre dous montes e, já dentro, hai moitos recetáculos bos e amplos, e à parte esquerda do porto hai monges da orde cisterciense. E o seu fogar é chamado Briom, e desse porto podem sair as naves com vento do norte e do noroeste e de oeste e de sul e de sudoeste. O porto de Junqueira é ancho e profundo e, no medio da entrada, hai umha ilha á que chamam Marole [Marola] que se deixa à dereita ao entrar, e ascendendo chegamos à igreja que chamam Sanctus Georgius de Turribus [Sam Jurjo de Torres, Vilarmaior (!!!)]. E diante dessa igreja hai um ancoradoiro de naves, e subindo por esse rio, quase por sete milhas, hai umha boa vila e fértil que do mesmo modo chamam Le Far [O Burgo do Faro, O Temple], que é vila dos templários. E dessa vila contam-se nove milhas até Sanctum  Iacobum [Santiago].

Despois em terra desse rei hai um monte grande que chamam Kayon [Caiom], e despois hai umha ilha grande à que chamam Cesarga [Sisargas], e dista do porto de Faro por quatro milhas. E nessa ilha hai três casas de heremitas, e nengumha nave pode passar com segurança entre a ilha e a terra. E despois em terra deste rei hai um porto bo ao que chamam Yuorie [Javinha (Xaviña)] e na entrada desse porto hai um monte grande ao que chamam Villanus de Yuorie [Cabo Vilám], e a similitude cuns viláns está no cume do monte que fica à esquerda segundo se entra. E no medio desse porto hai um passo. E o porto esse dista da ilha Sisarga v milhas, e á dereita entrando está a vila que chamam Sancta Maria de Yuorie [Santa María de Xaviña].

Despois na terra do devandito rei hai um monte grande que se interna moito no mar e que é chamado Fenestres [Fisterra], e ali está a igreja e vila que chaman Sancta Maria de Fenestres [Santa Maria de Fisterra], ainda que nom hai aí porto nem bo ancoradoiro, se bem a quase umha milha hai um porto bo chamado Cee [Cee], e antes da sua entrada hai umha ilha e umha laje que se deixam à dereita ao entrar [ilhas Lobeiras e Carrumeiros]. E junto a esse porto hai um bo ancoradoiro ao que chamam aqua de Esare [Ézaro], e junto a esse rio hai um monte grande ao que chamam le Pinal de Esare [O Pindo], dito assi porque os pinos medram nel, e o devandito monte deixa-se á dereita do ancoradoiro. E despois em terras desse rei hai um porto bom ao que chamam Tamar [=Tambre: Ria de Noia e Muros] que dista 6 milhas de Santiago. E junto a esse porto hai um monte grande forcado [Tremuzo?] que deve deixar-se à esquerda ao entrar. E no medio desse porto hai um passo de navios, já que á esquerda hai lajes e à dereita areas.

Despois hai um monte agudo que chamam Sanctus Albertus [Monte de Sam Alberte em Ribeira / A Curota na Povra], e junto a esse monte está Petra Sancti Iacobi [Pedra de Santiago = Padrom], e ai hai um porto que dista do do Tambre por umha milha. E no medio desse porto hai umha ilha que chamam Saluer [Sálvora] que deve deixar-se à esquerda ao entrar. E a entrada desse porto dista duas milhas de Padrom. E Padrom dista 4 milhas de Santiago. E fai-se notar que junto á ilha de Sálvora hai algumhas lajes perigosas e moi temidas polos transeuntes à que chamam le Ordure de Thare [= Teira: Baixos de Corruvedo] e que se adentram no mar por duas milhas. E quando o mar está alto estám cubertas e non podem ver-se, e deixam-se á esquerda segundo se entra ao porto de Padrom, e polo tanto compre, ao passar polo porto do Tambre, afastar-se da terra cara ao mar para evitar a devandita laje de Tayre [Teira].

Despois em terra desse rei e nom longe da ilha de Sálvora hai um porto bo que chamam Punteuedre [Pontevedra], e hai aí um bo burgo tamém chamado Pontevedra. E diante desse porto hai umha ilha grande chamada Aunis [Ons][iii] que se deixa à dereita ao entrar a esse porto. Despois está o porto que chamam Mior [Minhor] e um burgo bo que de igual modo chamam Mior [A Ramalhosa - O Burgo], e nesse burgo hai duas torres de pedra que se deixam à esquerda ao entrar. E despois em terras do devandito rei nom longe de Minhor hai umha grande abadia pola beira-mar ao que chamam mosteiro de Hoy [Oia] que tem altas torres que chamam Torres de Oia, ainda que nom tem porto nem ancoradoiro. Despois em terra desse rei non longe dessa abadia hai um porto bo que chamam aqua de Mine [rio Minho], a cuja entrada hai um monte forcado [Santa Trega] que se deixa à esquerda ao entrar. E a entrada no medio do porto hai umha ilha [a Ínsua]. E o rio Minho divide as terras do rei de Santiago das do rei de Portegail [Portugal]. E sobre o rio Minho em terras do rei de Santiago hai umha cidade boa à que chamam Tine [Tui] que dista da entrada do porto 4 milhas. E assi que a auga do Minho chega á devandita ilha que hai á entrada do porto divide-se em duas partes. E aquela contra a terra do rei de Santiago chama-se Galega [ = ], ja que toda a terra do rei de Santiago chamase Galicia. E a parte que está contra a terra do rei de Portugal chama-se Maurisca [mourisca], porque veu da terra dos Mouros.

VI. Na terra do rei de Portugal, junto à entrada do porto do Minho da parte que chamam Mourisca hai umha torre de pedra. E deve fazer-se notar que do outro lado da ilha que está á entrada do Minho nom podem as naves grandes entrar nem com marea chea. Em terras deste rei nom longe da auga que chamam Mourisca hai um bo porto que chamam aqua de Lime [río Límia], e ali hai um monte grande que chamam monte de Onur [Mt. Santa Luzia], e a entrada ao porto está entre o devandito porto e as areas brancas que hai do outro lado, e esse monte deve deixar-se à esquerda ao entrar, e a area á dereita ao entrar. Deve fazer-se notar que quase todas as areas que hai atá Lisboa som brancas. (…)

~o~o~o~

Realmente penso que o texto fala só e nom precisa interpretatio. Contodo, hai quando menos três detalhes que gostaria de sinalar.

Primeiro, ao ser um itinerário elaborado contra o 1190, assistimos ao nascemento dos primeiros burgos medievais, lavoura impulsada sobre todo desde a própria monarquia galego-leonesa. Já temos aí Ribadeu, o Burgo na ria da Coruña, Pontevedra, e o Burgo de Minhor; mais ainda nom temos Viveiro, Betanços ou A Corunha; Noia nom é mencionada (apenas como Porto do Tambre), e o Burgo de Minhor ainda estava na Ramalhosa e nom em Baiona.

Outro detalhe, o que hoje é conhecido como reino de Leon é descrito polo autor inglês como a terra do rei de Santiago, e quando tem que lhe dar nome a esta terra o nome dado é Galicia. Lembremos que já em vida do rei Afonso VII o emperador, este coroou reis aos seus filhos, mantendo para si o título imperial. Assi, o futuro Fernando II de Leom já é reconhecido como rei de Galicia em documentos de, por exemplo, o mosteiro de Vilanova de Ozcos (cf. n. 4 e 5). Ainda que a morte do seu pai os seus diplomas amossam umha clara preferência por se apresentar mais como rei de Leon, ou mesmo dos Hispanos, que como rei de Galiza, ou de Leon e Galiza. Nesse senso, o seu filho (hoje conhecido como Afonso IX) empregará mais ou menos coa mesma frequência os títulos de rei de Leom, e de rei de Leon e de Galiza; mais nom lhe conheço o emprego do título de rei de Galiza em exclusividade. Se no século X nom poucos diplomas e crónicas situam a cidade de Leom na Galiza, para o século XIII já se tinha consumado a separaçom (nom política) entre o nosso país e o país leonês; mais nas fontes inglesas ainda é Galiza o nome do país, e Santiago a máis célebre capital do reino. Algo similar temos numha outra crónica inglesa coetánea, mesmo pode que da mesma autoria; na Narratio de Itinere Navali Peregrinorum Hierosolymam Tendentium et Silviam Capientium, de 1189, onde se narra a captura de Silves por cruzados ingleses no ano 1189, explica-se que “devemos ter em conta que hai cinco reinos entre os espanhóis, nomeadamente de Aragom, o dos Navarros, e esse que especificamente é chamado dos espanhóis e cuja capital é Toledo, assi como tamém aquel dos habitantes da Galiza e de Portugal” [“Considerandum etiam quod, cum sint quinque regna in Ispaniorum, videlicet Arragonensium, Navarrorum et eorum qui specificato vocabulo Ispani dicuntur, quorum metropolis est Tolletum, item incholarum Galicie et Portugalensium”].

Por último, e se interpreto corretamente, que a beira norte do Minho levasse por nome Galega e a sul Mourisca tem o seu aquel, e deve-se remeter a um estado de cousas moi antigo. Lembremos que Porto ou Coimbra já foram (re)conquistadas pola nobreza galega no século IX, quer-se dizer, antes do ano 900.







[i]O texto indica miliares que traduzo por milhas.

[ii]Nom sei se a minha traduçom é de todo correta; o texto original di: “et est ibi mons magnus que qui dicitur le Vilan, quia similitudo cuiusdam uillani stat in cacumine montis illius”.

[iii]No texto editado Amis, que penso deve ser mala leitura ou transmissom de Aunis.

7 de abril de 2014

Abaira 'balsa', abeira 'pingueira' < abanaria/apanaria

Consultando a tese doutoral de Paulo Lema (o nosso Ulmo de Arxila), no artigo adicado ao topónimo Fírvado leo as seguinte passages:

per terminis de Ferueta que dicent Apanaria (SERS 921)
“in primis incipit ad Feruedam ubi dicunt Abanariam” (SERS 1214)

contidas em dous documentos procedentes do mosteiro de Santo Estevo de Ribas de Sil, e onde vemos que Apanaria alterna com Abanaria, sendo difícil precisar sé a primeira forma é um estadio primitivo da segunda, ou umha grafia hiper-correcta.

Por umha banda, férveda, palavra estudada por Lema, seria um particípio de FERUERE, ferver, relacionado coa nossa verba fervença; o  dicionário de Franco Grande define:

Manantial donde surge el agua o donde hay olla o sima que traga las aguas”.

Pola outra, Apanaria/Abanaria tem igualmente um aspecto de hidrónimo, aspecto confirmado polos dicionários, se é que atendemos ao que som prováveis formas modernas derivadas desta forma medieval (abanaria/apanaria > *abãeira > abeira / (a)baira, como abellanaria > abraira/abelaira/abelaeira/abeleira):

baira 'encoro, presa dum rio, corgo' (Elixio rivas, Carré Alvarellos, Constantino García)


Na toponímia temos vários lugares com nomes provavelmente relacionados:

As Bairas (em Parada de Sil, OU: A Hedrada, Caxide e Forcas)
A Abaira (em Ribadeo, LU: Arante e Ove)
A Baira (em Riós, OU: Trasestrada)
A Baira (em Sarreaus, OU: Freixo)
As Bairas (na Teixeira, OU: Sistín)
A Abaira (em Trabada, LU) 

Apanaria/abanaria, como étimo destes apelativos e topónimo, seria um derivado romance dum pré-latino *Apana- ou *Abana-, à sua vez coido que um derivado dumha de três raízes indoeuropeas, todas relacionadas coa auga:

*ab- 'auga, rio'

*ap- 'auga, rio'

*akʷā- 'auga, rio'

A segunda e a última penso que som as opçons menos prováveis, mais nom desbotáveis a priori, e poderíamos relacionar ambas cos nomes galaico-lusitanos pré-latinos Apanus/Apano e Apana. Num caso amossaria preservaçom de /p/, presente em topónimia e onomástica pré-latina em toda a península ibérica, mais com especial incidência no ocidente; noutro a evoluçom kʷ > p ou ku̥ > p.[i]

No entanto, a primeira opçom penso que é a máis simples e provável, por ser tamém para a que temos umha maior base comparativa: rio Abaña[ii] (medieval Auania), abeneiro 'amieiro', abenal 'amieiral' < pré-latino *aben-no- '(árvore de) rio” (cf. Celta *wer-no- 'amieiro', de formaçom totalmente paralela sobre *wer- 'auga, rio')  

Em todos os casos apanaria/abanaria seria umha palavra de induvidavel orige indo-europea, mais nom necessariamente celta, algo assi como um derivado “agüeira”, com possibilidade de presentar múltiplas especializaçons semánticas. 





[i] Para o Lusitano é fenómeno admitido a evoluçom kʷ > p (pumpi canti 'quinhentos' < *penkʷe, puppid < PIE kʷod-kʷid), no entanto kʷ > p e ku̯ > p som evoluçons suspeitas para algunhas variedades hispano-célticas (cf. Pintia < *penkʷto-yo- , Cópori < pekʷero, Pantiñobre, Pezobre).

[ii] Nom hai ou nom conheço documentaçom que permita suster Abaña < *Apania ou ou abeneiro < *apennario.

3 de febreiro de 2014

Estadea 'Companha' < ‘Nobre’ (?)



Estadear em Português é:

“(estado+ear)
vtd 1 Ostentar: Estadear títulos.
vpr 2 Alardear pompas, envaidecer-se, enfatuar-se: "Começou a impar e a estadear-se" (Morais). vpr 3 Ensoberbecer-se.” (Michaelis Moderno Dicionário da Língua Portuguesa).

“(estado + -ear)
verbo transitivo1. Ostentar; alardear.
verbo intransitivo e pronominal2. Fazer ostentação. 3. Envaidecer-se; ensoberbecer-se.” (Dicionário Priberam da Língua Portuguesa)

Em galego, e segundo o dicionário de Leandro Carré Alvarellos, é “Ostentar, mostrar con magnificencia y pompa.” Nom a tenho por verba usual, e nom da qualquer tipo de resultado ao ser buscado no TILG ou no dicionário da RAG. Pola contra, o seu derivado deverbal, a estadea (co diminutivo estadaíña/estadeíña), é verba viva referente a um dos nossos mitos, ou mesmo a umha multiplicidade e combinaçom de vários.

Por umha banda, a estadea é definida como 'congregación de brujas' e 'aparición' por Luis Aguirre del Río (1858). Mais tarde já é 'Hueste' ou 'Compaña' (Fracisco Javier Rodríguez, 1863), 'Estantigua' (Pintos, c. 1865), 'Esqueleto ó figura de la muerte' e 'Compaña' (Cuveiro, 1876), 'Procesión de Brujas' e 'Compaña' (Valladares Núñez, 1884), 'Fantasma. Ser imaginario que recorre los campos y lugares despues de la media noche. Es altísima, blanca y transparente, de ojos penetrantes y lengua de fuego.' (Carré Alvarellos, 1928-31). Moito máis extenso é o tratamento que se lhe da no dicionário enciclopédico de Eladio Rodríguez:

“Muchos confunden la ESTADEA con la COMPAÑA, y no es precisamente lo mismo. La COMPAÑA es la procesión de fantasmas o almas en pena que en las sombras nocturnas recorren los caminos solitarios, mientras que la ESTADEA es un alma sola que ronda los cementerios y vaga siempre a deshora por las CORREDOIRAS. Aún hay quienes creen también que la ESTADEA es la fantástica procesión de las MEIGAS caminando por los aires hacia sus aquelarres. Como todo lo maravilloso, la ESTADEA, la ESTADAÍÑA y la COMPAÑA, pueblan las imaginaciones campesinas de quimeras y visiones; y así no es extraño que se confundan, ya que unas y otras pertenecen al mundo de lo sobrenatural. Apenas hay rincón aldeano en Galicia en que deje de creerse en la ESTADEA, que unas veces anda silenciosa rondando la casa donde pronto ocurrirá una muerte o una desgracia; otras recorre los caminos dando ayes lastimeros hasta que encuentra quien valientemente la esconxure, y otras veces viene a pedir que se cumplan ciertas ofertas y restituciones. En la Iglesia de Coiro, según el Padre Sarmiento, había una campana a la que se atribuía virtud suficiente para conjurar con sus sonidos las MEIGAS y la ESTADEA.”

Lembremos que a Compaña ou Estantiga é um mito que tem a sua base, em parte, no mito europeo da Caçaria Salvage, um grupo noturno e embravecido de guerreiros ou caçadores fantasmagóricos que podem perseguir ou incorporar ao seu grupo aos que se cruzam com eles. Remeto ao leitor a magnífica série de entradas que Gonzo, no seu blog A Nosa Historia, adica a este mito. De facto, a própria verba estantiga procede dum anterior HOSTE ANTIQUA 'exército antigo' (feminino, e nom como as vezes se di do masculino HOSTIS ANTIQUUS 'o antigo inimigo, o demo'), nome que se achega moito ao nome co que este mito é conhecido em alemám (Wilde Heer, Wütende Heer). 

Além disso, devo salientar que a Caçaria Salvage está capitaneada polo geral por um caçador que recibe diversos nomes nos diversos lugares onde o mito é popular, sendo por vezes umha personage anónima, e outras umha antiga divindade ou um nobre maldito.

Á marge de se Estadea define a umha apariçom solitária ou se é um outro nome da Companha, nom semelha haver moita relaçom semántica entre esta e o verbo estadear. Daí o interessante do seguinte fragmento, datado no século XIII, umha genealogia elaborada num mal castelám –castrapo?– e correspondente aos fundadores do mosteiro de Ferreira de Palhares, perto de Lugo:

Era de mill (en blanco) annos. Esta est a remembranza do moesteiro de sancta Maria de Ferrera de Pallares, cuya herdade foy e de qual fundamento veno, foy herdade e casa del conde don Ero. E deste conde don Ero nascio Gosteo Hyerez. Et de Gosteo Herez dona Odrozia Gosteez, e veno casar con ella el conde don Rodrigo Romaez, qui foi filo de Roman Vermuiz e nieto del Rey don Vermoon el Poogroso. E deste don Rodrigo Romaez e desta dona Odrozia nascio el conde don Monio Rodriguez. E deste don Monio Rodriguez nacio el conde don Rorigo Muniz e Elvira Muniz. Et destas estadeas subre dictas semper fuoy sua herdade Ferrera con seu couto.”

Este fragmento é, provavelmente, o máis temperám dos usos da palavra estadea, e em consequência e indiretamente tamém, o primeiro testemunho do verbo estadear. Nel penso que podemos traduzir estadeas por 'personages' ou 'nobres', e aqui já podemos ver umha relaçom com estadear 'ostentar, alardear', e em última instáncia tamém com estada 'andámio, armaçom', estadela 'cadeira alta', e nom sei se estadulho 'fungueiro, estaca para suster a carga no carro'.

Concluindo, coido que a partir de estada* 'repisa, andel, elemento para manter algo em alto' teríamos umha estadela 'andel > cadeira', e tamém um verbo estadear 'elevar, situar numha estada' > 'ostentar, alardear'. Deste verbo teríamos o deverbal estadea 'nobre, magnate, persoa privilegiada', e esta palavra hoje desusada teria sido no seu momento empregada para designar ao capitám da Companha, um nobre maldito, umha estadea anónima.
 
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*Penso que estada é verba de orige germánico e nom latino. Por umha banda, consultando o Romanisches etymologisches Wörterbuch de Meyer-Lübke vejo que nas línguas romances só as verbas latinas relacionadas STATUA, *STATUALIS, STATIO dérom descendência. E por outra, a semántica das verbas derivadas do proto-Germánico *staþōn 'andel, plataforma' estam moito máis achegadas à nossa verba do que os outros derivados romances do latim STATUUS: gotico lukernastatha 'candieiro' (é um composto de lucerna e statha), ON staði 'stack, rick', MLG stade 'place where wheat is stored', e do PGmc *staÞ(u)laz: ON stál ‘stack’, OS staðal ‘barn’. No Tratado de Albeitaria estada tem claramente o valor de ‘corte para o cavalo’: Et pois que o da agoa trouxeren deuen lle exugar et trager os pees et as coixas, ante que o metan na estada ou na casa.